Da clareza

Gustavo Carneiro

Perdoará o leitor se estas linhas não trouxerem nada de novo nem forem particularmente originais. Sucede que em alguns momentos, por dever de sistematização ou imperativo de memória, se impõe registar o que por aí se diz e escreve, sobretudo quando estão em causa questões tão importantes como as eleições de 30 de Janeiro e a maioria absoluta alcançada pelo PS.

Desde cedo que o PCP viu na dramatização em torno do Orçamento do Estado, na convocação de eleições antecipadas e nas sondagens diárias e restante máquina mediática à medida do voto útil peças de uma operação visando o retorno pleno da política de direita, sem quaisquer constrangimentos. Contados os votos e confirmado o resultado, é hoje claro que tinha razão, e são insuspeitas as fontes que o confirmam.

Logo no dia 31, o presidente da CIP confessava que António Costa lhe foi dizendo ao longo dos anos que «estava refém dos partidos da esquerda parlamentar». Face à nova situação, o patrão dos patrões é da opinião que «temos de aproveitar essa maioria absoluta para um novo ciclo». De que consta esse novo ciclo? António Saraiva explica: «previsibilidade fiscal amiga do investimento» e «maior eficiência da administração pública, com redução da despesa». É preciso traduzir?

Já os presidentes das confederações patronais do Turismo, da Agricultura e do Comércio esperam alívios fiscais e futuras decisões sobre aumentos do salário mínimo subordinadas à chamada concertação social, ou seja, ao seu acordo e autorização.

Quem também gostou dos resultados eleitorais foi a banca privada. No dia em que anunciava que os lucros do BPI triplicaram num só ano, o CEO regozijava-se pela «vantagem e oportunidade enorme» que a maioria absoluta do PS constituía no momento histórico que o País atravessa – leia-se, em vésperas de começarem a chegar os milhões da chamada bazuca. João Pedro Oliveira e Costa acredita ainda que será desta que acabará a contribuição extraordinária sobre a banca.

Satisfeitas estão, também, as agências de notação financeira (ou de rating, que em estrangeiro tudo parece mais sério e recomendável), as mesmas que em 2011 deram cobertura ao maior assalto de sempre à economia nacional e aos direitos da maioria dos portugueses: a Fitch, a Moody’s e a Standard & Poor’s vêem com bons olhos a maioria absoluta por tornar «altamente improváveis» alterações (para melhor, dizemos nós) à legislação laboral.

O resultado das eleições torna ainda «provável», garante a Fitch, a aprovação do Orçamento do Estado (o tal que era o mais à esquerda de sempre) sem «mudanças significativas». Ou, quanto muito, apenas com os «retoques» de que falava o Expresso no dia 4: para já, deverá cair o englobamento em sede de IRS das mais-valias mobiliárias.

É preciso dizer mais?




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