Últimos argumentos para casos desesperados

Manuel Gouveia

A Maria tem 20 bolachas, o João tem 40 bolachas e o António tem 200 bolachas.

Se fosse preciso pagar imposto sobre as bolachas, num sistema proporcional como aquele que temos hoje, a Maria estaria isenta, o João pagaria quatro bolachas (taxa efectiva de 10%) e o António pagaria 80 bolachas (taxa efectiva de 40%). O Estado arrecadaria 84 bolachas, enquanto o António manteria 120 bolachas, o João, 36 e a Maria 20.

Se todos estivessem sujeitos a uma taxa única de 15%, a Maria pagaria três bolachas, o João pagaria seis bolachas e o António pagaria 30 bolachas. O Estado arrecadaria 39 bolachas, a Maria ficaria com 17, o João com 34 e o António com 170.

Nesta segunda situação, com a taxa única de 15%, o Estado arrecadou menos impostos, mas de facto apenas o António pagou menos imposto, pois quer a Maria quer o João pagaram mais. Ou seja, apenas os grandes acumuladores de bolachas beneficiaram desta «igualdade» na taxa.

Em qualquer das situações, o Sr. António (talvez já esteja na altura de o tratar por senhor António...) fica com muito mais bolachas do que a Maria e o João juntos. Mais 64 no primeiro caso e mais 119 no segundo.

E o Estado, ficando com muito menos bolachas (39 em vez de 84) terá muitas dificuldades em ajudar a Maria e o João a complementar a sua dieta. E tudo se agravará se os senhores do partido do Sr. Dr. António conseguirem igualmente fazer aprovar que as bolachas arrecadadas devem ser dedicadas prioritariamente a financiar o ginásio a que o Sr. Dr. recorre por comer bolachas a mais.

O normal seria que a Maria e o João votassem CDU nas próximas eleições. Para os convencer do contrário gasta – investe, como prefere dizer – o Senhor Doutor umas quantas bolachas a alimentar comentadores e jornaleiros. E estes, alimentados a bolachas e não ao pão-de-ló do ditado popular, lá vão repetindo que o que a Maria e o João precisam é que o Estado cobre menos impostos.

 



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