A verdade não pode morrer

Albano Nunes

A deriva militarista do imperialismo alimenta-se da estratégia de tensão

Pense-se o que se pensar sobre a política externa e interna do governo russo – importa ter bem presente que URSS foi destruída e a contra-revolução restaurou o sistema capitalista –, a verdade é que com Putin foi posto um travão ao conluio de Ieltsin com o imperialismo e a Rússia passou a reagir à cavalgada dos EUA, da NATO e da União Europeia para Leste, numa afirmação de soberania que conta com o apoio de um povo que tem ainda bem viva a memória da heróica guerra patriótica que derrotou o monstro nazi e não está disposto a aceitar imposições externas nem a viver sob a ameaça constante de agressão.

Esta é uma realidade que o governo de Moscovo leva certamente em consideração ao exigir garantias de segurança e ao propor acordos orientados para baixar a tensão e salvaguardar a paz na Europa.

É inquietante que tais propostas não só esbarrem na recusa dos EUA e da NATO (e da UE) como, negando tudo aquilo com que se haviam comprometido no quadro do desaparecimento da URSS e da dissolução do Tratado de Varsóvia, e fazendo tábua rasa dos acordos de Minsk em relação ao Donbass, aqueles que têm vindo a cercá-la do Báltico ao Mar Negro e a desafiá-la nas suas fronteiras com operações militares, continuem a acusar a Rússia de preparar a invasão da Ucrânia, país que os EUA e a NATO estão a instrumentalizar na sua estratégia expansionista. E mais inquietante ainda que, partindo em geral de meras suposições ou de «informações» forjadas pela CIA, esteja a ser orquestrada uma avassaladora campanha de mentiras e puras especulações destinada, ela sim, a dar cobertura (não esquecer as falsas armas químicas que serviram de pretexto à invasão do Iraque) a uma eventual aventura militar, nomeadamente por parte do governo fascizante de Kiev no Donbass, para cujas fronteiras tem deslocado poderosos meios militares.

As razões de fundo para tão irracional e avassaladora campanha residem na própria natureza agressiva do imperialismo, mas há motivações mais imediatas a que é necessário prestar atenção. Uma é a estratégia de tensão de que se alimenta a deriva militarista em curso na NATO e na UE, uma deriva cada vez mais justificada pelo combate às ditas «potências revisionistas» ou seja, aos países que, como a Rússia e sobretudo a China, defendem a Carta da ONU e o Direito Internacional e se opõem à nova «ordem com regras» que os desrespeita, passo a passo, o imperialismo norte-americano está a tentar impor ao mundo.

Outra consiste na velha prática da classe dominante de agitar o espantalho do inimigo externo para desviar a atenção das sérias dificuldades em que o sistema capitalista se debate, e como factor aglutinador do campo imperialista, atravessado por agudas contradições (em que avulta a guerra dos EUA ao gasoduto Nord Stream 2), mas unido na luta contra os trabalhadores e os povos.

A situação é particularmente grave e não poderá manter-se muito tempo na configuração actual. No encontro de Genebra entre Blinken e Lavrov, os EUA comprometeram-se finalmente em responder por escrito às propostas russas. Estejamos atentos aos próximos desenvolvimentos e não deixemos a verdade morrer.

 



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