O debate sem alternativa

Ângelo Alves

A campanha eleitoral entrou no seu período oficial. Até agora o balanço do tratamento mediático eleitoral foi marcado por uma enorme campanha de manipulação com um objectivo central: promover a bipolarização como elemento central destas eleições, induzindo nos eleitores a falsa ideia de que vão eleger um primeiro-ministro e que só existem duas escolhas, PS ou PSD, Costa ou Rio.

Desde as sondagens à escandalosa discriminação nos debates televisivos, passando pelos comentadores (que em 99% dos casos alimentam e se alimentam da bipolarização), pela promoção de Partidos que aceitaram ser peões nessa lógica bipolarizadora (como o PAN, o Livre ou a Iniciativa Liberal); tudo serve para tentar lançar a ideia que a «estabilidade» do País depende ou de uma maioria absoluta do Partido Socialista (uma impossibilidade por demais evidente), ou de entendimentos entre PS e PSD, permanentes, ou «lei a lei» como afirmou Costa, ou ainda destes com forças que não ponham em causa os interesses que estão por detrás dessa dita «estabilidade», uma visão requentada do «arco da governação» de Cavaco e cuja instabilidade conhecemos bem.

O esforço chega a roçar o ridículo como foi o caso do debate entre Rio e Costa que assumiu contornos de «novela» e de «superprodução» com um dia inteiro de transmissões, directos, minidebates de antecipação com dirigentes do PS e do PSD, peças sobre a vida de cada um dos protagonistas e, pasme-se, a tentativa de comparação desse debate a momentos históricos da vida nacional como o debate entre Álvaro Cunhal e Mário Soares em Novembro de 1975.

Veio então o debate, e a realidade impôs-se. A ausência de compromissos e de clareza sobre questões centrais da vida dos portugueses foi o fio condutor de um debate onde o sound-byte, a frase feita, a discussão abstracta dos «cenários» e a táctica retórica imperaram. Aliás, o debate teve apenas uma grande vantagem: demonstrar que daqueles dois partidos não surgirão por sua iniciativa reais políticas que resolvam problemas urgentes e estruturais e que se alguém procura visões alternativas não é ali que as encontra, é na CDU.




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