Tão novo e tão velho
Surgiu recentemente no panorama mediático algo que foi apresentado como a mais significativa novidade dos últimos anos: o aparecimento de um novo canal de televisão, que viria alterar por completo a forma como as notícias são dadas em Portugal. O rigor, a exigência, a independência e tantos outros adjectivos foram usados para caracterizar a nova CNN. Mas, olhando por baixo do lustre, o que vemos é que não se trata de um canal novo, mas uma mudança de cara da já conhecida TVI24: ocupa o mesmo lugar na grelha, é produzido do mesmo local e, apesar de algumas caras novas, em grande medida é apresentado e alimentado pelos mesmos jornalistas que já nos habituámos a ver na TVI e na TVI24.
Mas tudo isso podia não ser contraditório com a promessa de uma nova forma de fazer jornalismo, quase revolucionário, que nos era prometida. Ao longo de meses, a cuidadosa campanha de promoção do novo (velho) canal foi criando a ideia de que os fantásticos métodos da CNN seriam importados e finalmente teríamos uma informação de qualidade «made in USA». Mas as expectativas, se as havia, goraram-se logo ao primeiro noticiário. Numa peça repleta de contorcionismos históricos, são utilizados os percursos dos partidos comunistas francês, italianos e espanhol para explicar como o rumo para a irrelevância política, também para o PCP, é uma inevitabilidade. A conclusão não é explicitada, mas quer o alinhamento do jornal, quer a linha seguida naquela peça são claros nos objectivos a perseguir.
Mas a prova de que o novo canal é, afinal, mais do mesmo, chegou-nos no último fim-de-semana. Numa curta entrevista com o Secretário-geral do PCP, a CNN aproveitou a oportunidade para ir repescar todo o arrazoado de perguntas preconceituosas, as mesmíssimas que já foram feitas vezes sem conta: dando a volta ao mundo, da Coreia à Venezuela, passando pelas ideias estafadas que procuram pintar o PCP como um partido envelhecido e em declínio. Num momento em que se discutem os caminhos para o futuro do País e as soluções para os problemas que se enfrentam, a opção é clara, e revela um perfeito alinhamento nos planos de quem manda na comunicação social dominante. Não estranhamento, o canal surgiu através de um negócio sobre o qual pouco se sabe, mas que o deixou propriedade da dona da TVI.
Apesar da capa de novidade – e, registe-se, de actualmente ser o único canal que conta com um comunista entre os seus comentadores – parece evidente que a CNN Portugal já gorou as expectativas criadas nalguns. Resta-nos estar atentos para perceber se o seu surgimento em cima de uma campanha eleitoral não trará maiores desilusões.