A urgência

Gustavo Carneiro

O mundo aguarda com apreensão um ataque russo à Ucrânia. Pelo menos é o que nos dizem os representantes do Ocidente democrático e os seus propagandistas na comunicação social dominante (talvez dominada fosse termo mais apropriado). Segundo a narrativa oficial, a Rússia concentra tropas junto à fronteira ucraniana e haverá mesmo já, na secretária do presidente Vladimir Pútin, planos concretos para uma invasão.

Não temos como desmentir ou confirmar tão retumbantes revelações, mas uma coisa podemos fazer: deixar de lado sensacionalismos, afastar visões maniqueístas tão ao gosto de Hollywood e olhar para esta realidade complexa e potencialmente explosiva no seu contexto e na sua história. Feito isto, surpresa das surpresas, não é a Rússia quem sai pior na fotografia.

Recuemos três décadas, ao fim da Guerra Fria, anunciador – juravam-nos – da paz universal e do bem-estar eterno.Ao desmantelamento da União Soviética e à rápida (e tantas vezes brutal) conversão ao capitalismo dos Estados que a constituíam, como aliás dos restantes países do antigo campo socialista, não correspondeu o desanuviamento, a retirada das tropas norte-americanas da Europa e a dissolução da NATO, que sempre justificara a sua própria existência com a ameaça soviética.

O que aconteceu será mais ou menos conhecido, mas em tempos de deliberada e generalizada confusão não será de mais recordá-lo: as receitas económicas do costume, o desmantelamento de sectores económicos inteiros e a pilhagem de recursos, a desarticulação de Estados e a criação de dóceis protectorados, o atiçar de nacionalismos e fascismos. Sobre todo este caos, sucessivos alargamentos colocaram bases e contingentes militares da NATO junto às fronteiras da Rússia e os seus mísseis apontados para Moscovo.

Neste jogo explosivo, a Ucrânia é apenas um peão. Dominada desde Maidan (que teve a mão do então vice-presidente Biden e do seu filho) por sectores fascizantes e neonazis fortemente anti-russos, é candidata à NATO e ponta de lança deste cerco à Rússia, que o agora presidente Joe Biden reconfirma como a principal inimiga da América.

O perigo é real, a Leste, mas a história é mal contada. A Rússia não tem mais para onde recuar e o imperialismo só conhece os limites que lhe forem impostos. A luta anti-imperialista, pela paz, é tarefa central do nosso tempo. E urgente.




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