Novos militantes no Partido que sempre souberam ser o seu
Jorge Baltazar e Rosário Feio ingressaram há pouco tempo nas fileiras do PCP, chegaram por caminhos diferentes ao Partido que sempre lhes foi próximo e cuja militância consideram com entrega.
O ideal comunista e as lutas concretas não lhes eram estranhos
Jorge Baltazar tem 27 anos. Inscreveu-se no PCP há menos de um mês, passo dado com ponderação, como é normal quando se trata de uma decisão a que se dá importância. O derradeiro impulso para a militância foi a Festa do Avante! deste ano, onde esteve pela primeira vez e na qual confirmou «o humanismo» que se respira e de que se alimenta «aquele mundo mesmo único». A consciência da sua condição não brotou, porém, na Atalaia. Lá somente caiu o derradeiro e imperscrutável bloqueador.
Filho de operários e tendo na família materna passado e presente de ligação ao Partido, Jorge Baltazar lembra-se de ouvir fragmentos de histórias, embora em casa dos pais não se falasse muito de política. Nas aulas de História sim, falava-se de política e sentia-se atraído por ela, confessa.
O interesse suscitado foi crescendo, de guitarra na mão, a ouvir Zeca Afonso, primeiro, e depois Adriano Correia de Oliveira e José Mário Branco. As palavras destes ganharam sentido material experimentado já em 2008, quando «com a crise as coisas se tornaram muito difíceis. O meu pai, que trabalhava na construção civil, perdeu o emprego e nós quase perdemos a casa», relata, deixando fugir os olhos por breves instantes.
Até 2015 as dificuldades avolumaram-se e o desaparecimento do pai levou abruptamente Jorge Baltazar ao mundo da exploração laboral. «Depois de terminar o curso profissional [de electrotecnia], nunca arranjei nada na minha área. Trabalhei nas obras, numa gráfica, na restauração, no Pingo Doce. Em todo o lado gostaram de mim, mas por mais que se dê o litro, mandam-nos embora. É a precariedade», lamenta.
Nunca ganhou mais do que o Salário Mínimo Nacional até entrar como cantoneiro para os quadros da Câmara Municipal de Sintra, em cuja célula comunista está organizado. É ali que agora desenvolve a sua actividade política empenhada. E recobra forças a promover a valorização do trabalho e a defender os trabalhadores. «É uma questão de justiça», considera, antes de dar dois exemplos que o animam no combate de classe a que se entregou recentemente e de livre vontade: o facto de a mãe, assistente operacional, «ganhar, ao fim de anos e anos, quase o mesmo que aqueles que entram agora no serviço», e a desprotecção dos trabalhadores em situação de acidente no trabalho, o que o levou a denunciar a indiferença e laxismo com que foi tratado um seu colega.
Jorge Baltazar quer sair de casa da mãe, onde vive com dois irmãos que estão a concluir cursos profissionais, construir uma vida autónoma. Ainda não o fez porque o salário que aufere e «o preço das casas, uma verdadeira loucura», impossibilitam o sonho, sublinhou em conversa com o Avante!
A despedida foi feita com um literal «até amanhã, camarada», certos de que nos veríamos no dia seguinte, na manifestação convocada pela CGTP-IN, pois sendo comunistas, é na luta que nos encontramos, invariavelmente. Tenhamos muitos anos de militância ou apenas alguns dias.
É para ser a sério
Rosário Feio, advogada, é sensivelmente 20 anos mais velha do que Jorge Baltazar. Também ela tem raízes familiares no PCP, por isso o Partido, o ideal comunista e as lutas concretas em cada momento nunca lhe foram estranhas. Pelo contrário, sempre lhes foi próxima. Contudo, os afazeres familiares e profissionais absorviam quase todo o tempo. Isto porque para Rosário Feio, ser militante é igualmente «para ser a sério».
Com os filhos mais crescidos, a militância comunista proporcionou-se. Começou por participar num movimento em defesa da profissão que sempre exerceu, no qual, entre inscritos noutros partidos e pessoas sem filiação partidária, conheceu alguns camaradas, testemunhou. Com estes últimos estreitou laços, começou a envolver-se na vida autárquica no concelho onde reside, sendo hoje eleita na Assembleia Municipal de Loures.
Rosário Feio ingressou por decisão e iniciativa própria nas fileiras do PCP, algo que, insiste, já há muito andava a sopesar. Está entusiasmada com as responsabilidades que assumiu na intervenção autárquica, nas áreas da Acção Social e Urbanismo, a qual, sublinha, pretende levar por diante com rigor e envolvendo o mais possível as pessoas, pois «de outra maneira não faz sentido».
É para ser a sério, portanto. E «nem podia ser de outra forma», concluiu.