Alcaçuz

António Santos

Se pudéssemos ser mosca! Em voo picado desceríamos pela chaminé da fábrica e ouvir-se-nos iam as asas, que não há máquina, nem operário que a opere, que por estes dias labore na Companhia Americana do Alcaçuz, em Union City, Estado da Califórnia. Não é lock-out nem falência e greve não é certamente. Ironia onomástica, o que por aqui falta é o alcaçuz, mas também o açúcar e os corantes, e o regulador de acidez e metade da fórmula com que se fazem as guloseimas.

A Califórnia não é Caracas, mas as prateleiras andam vazias nesta terra do leite e do mel. A crise das cadeias de abastecimento é a história de como o capitalismo se tornou volátil e desorganizado. Pudéssemos nós ser mosca e veríamos como, dentro de portas, o sistema se foi transformando na caricatura que do socialismo pintou: a única coisa que abunda é a escassez.

Bem poderíamos culpar a COVID (que largas costas tem revelado para a expiação de culpas e pecados) pelo atraso, há um ano, na produção e transporte das mercadorias do mundo. Só que depois, o Norte retomou os padrões de consumo, mas o sul periférico não conseguiu retomar os níveis anteriores. Não há vacinas nos cus-de-Judas de onde vêm as nossas coisas, o que nem seria um assunto macro-económico, não fossem metade dos trabalhadores da marinha mercante do mundo, por exemplo, serem oriundos de países em que menos de 15 por cento da população está vacinada.

Acumularam-se os contentores nos portos de Los Angeles e Long Beach, onde as velhas infra-estruturas portuárias, logísticas e rodoviárias por fim se vingaram de décadas de desinvestimento, multiplicando os atrasos. Sobrevoando em círculos o pesadelo logístico nos portos, os especuladores apostaram na subida do preço médio do envio de um contentor da China para os EUA e, por condão do seu agoiro, ele quadruplicou para uns vertiginosos 20 mil dólares. Numa palavra, o capitalismo globalizado tem cada vez mais dificuldade em sincronizar-se.

Para fazer uma guloseima de alcaçuz são precisos mais de 40 ingredientes, mas basta que falte um deles para não ser possível fabricá-la. Pudéssemos nós ser mosca e, descendo pelas janelas dos operários mandados para casa, veríamos como, pela primeira vez em quase cem anos, os californianos voltaram a usar velas para não gastar electricidade. Pudéssemos nós ser mosca e confusos acabaríamos, debatendo as asas contra a cera quente até algum arqueólogo, mais confuso ainda, séculos depois nos achar no estrato e se perguntar por que razão, em 2021, no país mais rico do mundo, os operários usavam velas.




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