Uma certa esquerda

Gustavo Carneiro

Os acontecimentos recentes em Cuba trouxeram de novo à tona a existência de uma certa esquerda, que pelo menos em matérias de política internacional se distingue da direita pela retórica utilizada e pouco mais. Uma esquerda surgida com a intenção de «começar de novo», que se propõe a «travar a luta toda», mas que não atribui qualquer valor à soberania dos Estados e aos direitos dos povos e partilha com o imperialismo uma mesmíssima concepção de democracia.

Assim, quando Cuba se encontrava (literalmente) na mira dos EUA, lá veio a conversa das liberdades e da ditadura, a relativização dos efeitos do bloqueio, o apagamento das extraordinárias conquistas políticas, económicas e sociais alcançadas pela Revolução cubana. Esta esquerda garante não querer uma intervenção contra o país caribenho, mas no essencial assume a narrativa que lhe abre caminho.

Mas nada disto é novo. Já em 2011, nas vésperas da agressão contra a Líbia, representantes dessa mesma esquerda votaram favoravelmente a resolução do Parlamento Europeu com que se procurou justificar a criação de uma zona de exclusão aérea naquele país do Norte de África, ajudando na prática a legitimaraos olhos da opinião pública a transformação da NATO em Força Aérea dos rebeldes democráticos anti-Kadafi – que, só não via quem não queria, eram afinal grupos terroristas ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico, com mal disfarçadas ligações às potências ocidentais.

Entretanto, a Líbia está destruída e o seu povo encontra-se à mercê de grupos armados – sem segurança, sem direitos, sem democracia, praticamente sem país. Mas ao menos já não representa um obstáculo às pretensões do imperialismo na região nem constitui, aparentemente, um incómodo à extrema sensibilidade democrática dessa esquerda.

No que respeita a outra tragédia recente, a da Síria, a sua postura foi em tudo semelhante: partilhou alvos, aliados e narrativas com o imperialismo, cavalgou simplificações e mistificações, ajudou a travestir mercenários e terroristas de cândidos democratas. O saldo desta agressão é conhecido: meio milhão de mortos, milhões de deslocados, problemas económicos e sociais agravados. De pouco valerão, depois, as inflamadas proclamações em defesa dos refugiados, se do que estes fogem é precisamente da guerra e da destruição às quais essa esquerda deu cobertura política.

Por explicar fica a difícil conciliação entre a apregoada condição de esquerda e este alinhamento tácito com a mais brutal expressão do capitalismo na sua fase imperialista. E ainda a absoluta falta de solidariedade com os povos vítimas de – seguramente democráticas – agressões, sejam militares ou económicas.




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