Que esperar do ovo da serpente?

Manuel Rodrigues

Em Julho deste ano, a ONU divulgou o relatório «O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo» referente ao ano de 2020 que, na prática, constitui a primeira avaliação global deste tipo em situação de pandemia.

O relatório, que é publicado em conjunto pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (PMA) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) permite constatar que:

1) - Cerca de um décimo da população mundial – à volta de 811 milhões de pessoas – enfrentaram a fome em 2020, ou seja, cerca de 9,9% da população mundial (em 2019, eram 8,4%) tinha sido afectada pela fome;

2) - 30% da população mundial (mais de 2,3 mil milhões de pessoas) não tiveram acesso a uma alimentação adequada durante todo o ano de 2020 – indicador conhecido como prevalência de insegurança alimentar moderada ou grave –, o que constitui um salto no seu agravamento equivalente ao que tinha sido dado no conjunto dos cinco anos anteriores;

3) – que, entre os atingidos, mais de 149 milhões de crianças menores de 5 anos sofriam de desnutrição crónica, 45 milhões de desnutrição aguda e 39 milhões sofriam de excesso de peso;

4) - que a alimentação saudável permaneceu inacessível para 3 mil milhões de adultos e crianças em grande parte devido ao elevado custo dos alimentos.

É certo que, em muitas regiões do mundo, a pandemia provocou recessões brutais e prejudicou o acesso aos alimentos. No entanto, a ONU refere que, mesmo antes da pandemia, a fome já vinha alastrando.

Outros factores pesarão, certamente, neste grave problema, como os conflitos e as guerras, os extremos climáticos ou as recessões económicas. Mas não há dúvida que a sua causa principal são as enormes (abismais) desigualdades sociais que a exploração capitalista produz no mundo e que o capital monopolista, aproveitando como pretexto a pandemia, não tem cessado de aprofundar.

Afinal o que o relatório evidencia – mesmo que explicitamente não o reconheça – é que o capitalismo não só não é solução para nenhum dos problemas da humanidade como, pelo contrário, é da sua natureza continuar a agravá-los.

De facto, do ovo da serpente, o que há a esperar?




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