Não regula nada bem

João Frazão

A pro­pó­sito de mais um epi­sódio da gro­tesca no­vela de cor­rupção, pro­mis­cui­dade entre o poder po­lí­tico e o poder eco­nó­mico e uso e abuso do poder, desta vez tendo como ar­tista prin­cipal Joe Be­rardo, mas que en­volve os prin­ci­pais pro­ta­go­nistas do sis­tema eco­nó­mico em Por­tugal nas úl­timas dé­cadas, sal­taram à liça co­men­ta­dores dos mais di­versos ma­tizes bem como os di­ri­gentes par­ti­dá­rios do cos­tume pro­cu­rando, todos à uma, ga­rantir a fu­la­ni­zação deste caso e apontar erros in­di­vi­duais e des­vios à regra e à ética para o jus­ti­ficar.

Quase todos apontam as «elites», mal for­madas e im­pre­pa­radas para con­duzir os seus em­pre­en­di­mentos pelos ca­mi­nhos do bem que nos ha­ve­riam de levar a todos à pros­pe­ri­dade feliz ou a uma fe­li­ci­dade prós­pera, como se pre­fira.

Uns cen­tram o caso num de­ter­mi­nado pe­ríodo e num certo go­verno, ou­tros trazem à me­mória casos ou­tros, de antes e de de­pois, pro­cu­rando não ficar so­zi­nhos em tão fu­nesto re­trato.

Nem de pro­pó­sito, na mesma noite em que aqueles co­men­tavam e se in­dig­navam, sem con­tra­ponto, pe­rante tais des­mandos de me­nino(s) tra­vesso(s), a RTP apre­sen­tava-nos, igual­mente sem con­tra­ponto, mas com a chan­cela de cre­di­bi­li­dade con­fe­rida pelo canal 2, um ex­tenso do­cu­men­tário de glo­ri­fi­cação do me­nino pro­dígio do ca­pi­ta­lismo luso, Al­fredo da Silva e dos seus des­cen­dentes, que teve a van­tagem de na­tu­ra­lizar as suas li­ga­ções com o fas­cismo, de que foi um dos prin­ci­pais sus­ten­tá­culos e be­ne­fi­ciá­rios.

Uns e ou­tros querem dar-nos a en­tender que se trata apenas de in­ci­dentes de per­curso que não têm li­gação com a na­tu­reza ex­plo­ra­dora e pre­da­dora do ca­pi­ta­lismo, muito dis­tantes aliás do re­ga­bofe que foi o pro­cesso de fartar vi­la­nagem das pri­va­ti­za­ções e da in­te­gração na CEE, com o seu cor­tejo de fa­vo­re­ci­mentos e fraudes em prol das ne­go­ci­atas do grande ca­pital.

Não será de todo es­tranho a esse ob­jec­tivo o clamor com que al­guns re­clamam por maior re­gu­lação.

Ne­gando a evi­dência, pro­vada desde as suas mais re­motas ori­gens, que, in­sa­ciável como é, o ca­pital não se de­terá pe­rante nada para in­ten­si­ficar a acu­mu­lação de ri­queza, ainda que tal im­plique ac­ti­vi­dades de ra­pina dos re­cursos na­ci­o­nais, seja pela via ins­ti­tu­ci­onal e le­ga­li­zada, como agora e ou­trora se fazia, seja por via da fal­ca­trua mais des­ca­rada, como ou­trora e hoje se con­tinua a pra­ticar, clamar por re­gu­lação, como faz uma certa can­di­data a mi­nistra das fi­nanças, diz bem dos seus ver­da­deiros in­tentos.




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