Não regula nada bem
A propósito de mais um episódio da grotesca novela de corrupção, promiscuidade entre o poder político e o poder económico e uso e abuso do poder, desta vez tendo como artista principal Joe Berardo, mas que envolve os principais protagonistas do sistema económico em Portugal nas últimas décadas, saltaram à liça comentadores dos mais diversos matizes bem como os dirigentes partidários do costume procurando, todos à uma, garantir a fulanização deste caso e apontar erros individuais e desvios à regra e à ética para o justificar.
Quase todos apontam as «elites», mal formadas e impreparadas para conduzir os seus empreendimentos pelos caminhos do bem que nos haveriam de levar a todos à prosperidade feliz ou a uma felicidade próspera, como se prefira.
Uns centram o caso num determinado período e num certo governo, outros trazem à memória casos outros, de antes e de depois, procurando não ficar sozinhos em tão funesto retrato.
Nem de propósito, na mesma noite em que aqueles comentavam e se indignavam, sem contraponto, perante tais desmandos de menino(s) travesso(s), a RTP apresentava-nos, igualmente sem contraponto, mas com a chancela de credibilidade conferida pelo canal 2, um extenso documentário de glorificação do menino prodígio do capitalismo luso, Alfredo da Silva e dos seus descendentes, que teve a vantagem de naturalizar as suas ligações com o fascismo, de que foi um dos principais sustentáculos e beneficiários.
Uns e outros querem dar-nos a entender que se trata apenas de incidentes de percurso que não têm ligação com a natureza exploradora e predadora do capitalismo, muito distantes aliás do regabofe que foi o processo de fartar vilanagem das privatizações e da integração na CEE, com o seu cortejo de favorecimentos e fraudes em prol das negociatas do grande capital.
Não será de todo estranho a esse objectivo o clamor com que alguns reclamam por maior regulação.
Negando a evidência, provada desde as suas mais remotas origens, que, insaciável como é, o capital não se deterá perante nada para intensificar a acumulação de riqueza, ainda que tal implique actividades de rapina dos recursos nacionais, seja pela via institucional e legalizada, como agora e outrora se fazia, seja por via da falcatrua mais descarada, como outrora e hoje se continua a praticar, clamar por regulação, como faz uma certa candidata a ministra das finanças, diz bem dos seus verdadeiros intentos.