Recusar a canga verde

Manuel Gouveia

Entra hoje em vigor uma nova taxa sobre passageiros de avião e cruzeiro, criada por PS/PAN/BE em nome não se sabe bem de que ambiente. A taxa, de dois euros por passageiro, começa a ser cobrada quando o sector atravessa a maior crise de sempre, e necessita de medidas de estímulo à recuperação e não de novos impostos indirectos aplicados em nome da defesa do meio ambiente. Haverá algo mais cretino que aplicar a um sector exangue um imposto extra de perto de 100 milhões de euros? Deve haver, claro, mas agora de repetente não me vem nada à cabeça. Além da manifesta falta de oportunidade deste novo imposto, o PCP justificou o seu voto contra pela injustiça dos impostos indirectos face aos impostos directos, e na recusa da lógica de que as medidas ambientais devem ser financiadas por novos impostos ditos verdes e não por verbas retiradas do conjunto da arrecadação fiscal, pois essa lógica mais não faz que alargar a injustiça fiscal em favor dos maiores rendimentos e daqueles cujos rendimentos resultam da aplicação de capital e não do trabalho próprio. Esta medida junta a fome (de novos impostos) com a vontade de comer (por parvos aqueles que desejam ver aprovadas medidas ecológicas). Para o meio ambiente e para a redução das emissões atmosféricas de gases de estufa é que fará muito pouco. Estou aliás profundamente convencido que esta como tantas outras medidas ditas «em defesa do ambiente» chumbariam qualquer estudo de impacto ambiental sério que sobre elas incidisse. Resultam mais de uma visão pseudo-ecológica, profundamente queque e reacionária, que se submete às respostas «de mercado» como as taxas de carbono, o mercado dos créditos de carbono e o princípio do poluidor-pagador. Que foge às questões de peso, estruturantes e fracturantes, e se refugia em causas como a mudança da composição química da cotonete. Por fim, para aqueles que acreditam que as viagens de avião são tão perigosas como o cotonete de plástico, é preciso recordar uma ideia simples: O mundo não vai acabar, nem precisa de movimentos semi-messiânicos para trás, e todos os seus problemas encontrarão solução fazendo-o avançar!




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