Salário e casa
Um relatório da OCDE revelado esta semana (15 Junho) pelo Diário de Notícias dá nota de que o número de anos que um português precisa de trabalhar para pagar na íntegra a aquisição de uma casa com 100 m2, destinando para o efeito todo o seu rendimento líquido, aumentou para 11,4 anos. Um aumento que foi generalizado no conjunto dos países que integram esta organização.
Segundo o mesmo relatório as famílias portuguesas são as que sentem mais o peso dos empréstimos à habitação tendo em conta os seus rendimentos quando comparando com os restantes países da OCDE. E a fragilidade é ainda maior nos agregados com rendimentos mais baixos, conforme consta no dito relatório «O rácio [dívida/rendimento] está bem acima de 100% na maioria dos países da OCDE e ultrapassa os 200% em alguns deles, como Portugal, Espanha e Holanda». Portugal é mesmo o País, dos 22 analisados, onde esse valor é maior: 264%.
Se estes dados reflectem o aumento do preço das casas (arrendamento/compra) nos últimos anos, no caso português, esta realidade é ainda mais agravada pelos baixos salários que marcam a vida de milhões de trabalhadores. Os custos da habitação representam em média 40% dos rendimentos das camadas da população com mais baixas remunerações.
Este relatório vem expor com grande clareza dois problemas centrais que marcam a realidade nacional e que foram agravados pelos impactos directos e pelo aproveitamento da epidemia. Desde logo os baixos salários, indissociáveis da promoção da precariedade, do desemprego estruturalmente elevado, do bloqueio e desvalorização da negociação colectiva, de uma legislação laboral desenhada por PS, PSD e CDS para servir os interesses do grande capital. Mas também a crescente concentração da propriedade urbana, com um peso cada vez mais determinante do sector financeiro que nunca perde, pois ganha quando tem lucros e ganha também quando aparecem prejuízos (pois o Estado lá está para cobrir com recursos públicos os seus buracos) e a ausência de uma oferta pública de habitação capaz de responder às necessidades.
Estes são problemas profundos, sentidos por milhões de portugueses mas ocultados por uma agenda mediática que procura subverter a realidade e colocar os explorados a pensar nos interesses dos exploradores.