Limites
O jogo de toca e foge que Rui Rio vem jogando com André Ventura teve neste domingo mais um episódio bizarro. Poucos dias depois de ter dado mais um passo na aproximação à extrema-direita ao aceitar participar, pela primeira vez, na convenção do Movimento Europa e Liberdade (MEL), não por acaso considerada o «congresso das direitas», onde Ventura se saracoteou como peixe na água, Rio protagonizou um aparente retrocesso na dança nupcial com o dirigente do Chega ao decidir que o PSD não se faria representar, como estava previsto, na sessão de encerramento do Congresso daquele partido.
Segundo um comunicado divulgado a propósito, «há limites que a decência e o bom senso não permitem que possam ser ultrapassados», e esses limites «foram ignorados pelo líder do Chega, tal como é seu timbre», quer na forma quer no conteúdo, afirma o PSD, melindrado por Rio ter sido classificado de «muito mau líder» e acusado de ser «servente do PS».
Para o PSD, é irrelevante que há uma semana Rio tenha avalizado com a sua presença no MEL a mensagem de que não há nenhuma «cerca sanitária» em relação ao Chega, e contribuído para projectar a ideia de que a extrema-direita é bem vinda ao convívio da dita direita moderada.
Para o PSD, é indiferente que os apoios internacionais de Ventura sejam Matteo Salvini, dirigente do partido da extrema-direita italiana Liga e ex-vice-primeiro-ministro; Benjamin Netanyahu, o ainda primeiro-ministro israelita a braços com a Justiça e responsável pela política de expulsão e extermínio de palestinianos, que em mensagem agradeceu ao Chega por reconhecer Jerusalém como a «eterna capital de Israel», o que pelos vistos basta para concluir que «não é um partido xenófobo nem antissemita»; ou ainda a Igreja Maná, que no Brasil suporta de todas as formas o criminoso governo de Jair Bolsonaro.
Para o PSD, pouco importa que Ventura se ajoelhe em palco fazendo a saudação nazi, que garanta querer «muito, muito, muito limpar este país», ou tão pouco as ideias fascistas, xenófobas, racistas que defende.
Registe-se, pois, que para o PSD, os «limites» nada têm a ver com valores ou princípios, mas tão só com a qualidade dos epítetos dirigidos a Rio. Para limite, convenhamos, é limitado.