Os exageros do costume

Jorge Cordeiro

O BE realizou a sua convenção. Em si mesma o que é usual nestas ocasiões. Debateram e deliberaram o que julgaram dever fazer, elegeram quem entenderam eleger. O que será credor de registo é o tom, a grandiloquência, o exagero do costume, aquela irreprimível mania da tal «esquerda grande» que Louçã, hoje dedicado a sermões televisivos eivados de anti-PCP não contraditado, elucubrou e ali deu testemunho. Em suma, o cultivo da grandeza de quem imagina que antes deles em termos de luta seria o deserto, embalados pelo agigantamento mediático de que a sua actividade é beneficiária. Será no estribo destes exageros que se pode entender que o BE puxe pelo que designa «um caminho feito com a bagagem da coragem», conhecida que foi a sua atitude nestes tempos mais recentes, desertando da rua e da presença onde e quando se impunha estar (como se viu no 1.º de Maio de 2020 e nas muitas lutas nos meses seguintes) ou refugiando-se na cobertura que foi dando aos «estados de emergência» com que PS e a direita foram animando medos e procurando tolher a luta.

Mas fazendo prova de que nem só de exageros ali a vida é feita anote-se, em contra-ciclo, a falta de ambição em matérias como as da legislação laboral. É que para lá da espuma do discurso radical e das tiradas altissonantes é manifestamente curto ter por objectivo o que designam de «tirar a troica da legislação laboral». Não porque não seja justo, necessário e impreterível corrigir as malfeitorias do governo PSD/CDS da legislatura de 2011. Mas porque isso é esquecer e branquear os retrocessos impostos pelo PSD e CDS com o código de trabalho de 2003, onde foi instituída, entre outras normas gravosas, a caducidade da contratação colectiva, agravadas pelo PS nas alterações ao código em 2007, que não são menos graves nem menos urgentes corrigir. Uma questão, entre outras, se coloca: para o BE basta retirar as alterações para pior introduzidas no período da troica, permanecendo na lei a caducidade da contratação colectiva instituída com o Código do Trabalho?




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