A maior democracia do mundo
Um país de contrastes, contradições e injustiças
O quadro na Índia é dantesco, quatro meses após o primeiro-ministro Modi ter declarado vitória contra a COVID-19: a falência do sistema hospitalar e de saúde, o oxigénio convertido no produto mais valioso do mercado negro, as colunas de fumo que se erguem dos crematórios improvisados, os cadáveres a flutuar no Ganges. O número oficial de mortos ultrapassa os 300 mil (nos EUA 600 mil), mas todas as fontes são unânimes em considerar estes dados largamente subestimados.
Uma catástrofe humana cujas causas imediatas são inseparáveis das receitas de privatização da saúde, convertendo-a em apetitosa área de lucro. A ausência de um sistema de saúde público podia servir de cartão de visita do país por norma designado pelos apaniguados do pensamento dominante de maior democracia do mundo. Nada mais problemático, pois a tragédia pandémica desvela aos olhos do mundo a Índia real, para lá da fachada democrática, da democracia reduzida ao direito, ritual, a votar sem poder mudar.
Um país de excruciantes contrastes, contradições e injustiças. Em que a indigência e pobreza de muitos milhões, a divisão em castas e condição infra-humana dos intocáveis coexistem com a opulência e refinamento das classes dominantes. A Índia é uma montra em escala amplificada da matriz de desenvolvimento desigual do capitalismo. O atraso e subdesenvolvimento crónicos correm a par dos pólos de excelência tecnológica. Grande potência farmacêutica e fabricante mundial de vacinas, nas mãos dos grandes monopólios do sector, o país foi incapaz de evitar o descalabro humano resultante da pandemia.
O pensamento que exalta os dotes democráticos do segundo país mais populoso do mundo, piscando o olho ao legado benigno do colonialismo britânico na antiga jóia da coroa, faz também por ignorar os desmandos autoritários de Modi, as tendências fascizantes que assomam no partido do poder, BJP, com o racismo, a promoção aberta da violência e integralismo hindús, sem esquecer a intensificação da exploração de milhões de camponeses. Bem se sabe que o rei vai ostensivamente nu no próprio santuário da democracia burguesa.
Os EUA estão cada vez mais distantes de assegurar direitos básicos universais à saúde, educação, emprego, habitação. No pano de fundo da estagnação e declínio relativo, produto do aprofundamento da crise estrutural capitalista, os rendimentos do trabalho degradam-se há décadas, as desigualdades assombram e dos alçapões do sistema de poder do grande capital irrompem figuras grotescas, como Trump, e a inegável ameaça neofascista.
A ideologia dominante está coxa, mas a ordem é de convocar a galope a «aliança mundial de democracias» e enfrentar o adversário estratégico representado pela China. Por sinal, o único termo de comparação real com a Índia. Ambos civilizações milenares, de longe os únicos dois países com mais de mil milhões de habitantes, com pontos de partida similares, em termos de produto per capita, nos anos após a independência (indiana) e a revolução (chinesa). E não há como ocultar a diferença abissal entre os dois, não se resumindo só ao facto do PIB da Índia hoje representar menos de um quinto do chinês. A superioridade da orientação socialista na China, face ao capitalismo da Índia, é um dado inquestionável, confirmado pela prática.