Tudo ligado
A última década tem mostrado que, para alguns partidos, as comissões parlamentares de inquérito sobre o sistema bancário têm servido mais interesses de promoção mediática dos próprios do que exactamente a retirada de ilações sobre o desastre que constituíram os processos do BPN, do BES ou do Banif, ou mesmo para que permitam saber o que levou a estes desastres de contornos criminosos.
De tanto insistir na mesma fórmula, sem que os inquéritos parlamentares anteriores tenham ajudado a evitar os desastres seguintes, a actual comissão ao Novo Banco tem merecido menos atenção mediática face a outras que a precederam. Ainda assim, olhando apenas para os principais noticiários das três estações televisivas em sinal aberto, somam-se cerca de 40 minutos de notícias sobre as várias audições que decorreram no último mês. E o que nos dizem esses 40 minutos?
Primeiro facto: apesar de terem lugar na comissão 17 deputados (mais 7 suplentes), a apenas quatro, de três partidos (PS, BE e CDS), foi dada voz nas peças televisivas editadas no último mês. Segundo facto: só uma deputada – Mariana Mortágua, do BE – fez o pleno, tendo voz em peças quer da RTP, da SIC ou da TVI. Terceiro facto: em 14 peças televisivas, a única deputada do CDS na comissão – Cecília Meireles – surge isolada em imagem em oito delas e em viva voz em quatro; o deputado do PCP, Duarte Alves, apenas surge isolado em imagem em seis.
O que se exige não é uma cobertura jornalística feita a régua e esquadro. Mas também não é aceitável que, repetidamente, se inventem critérios que levem à promoção dos mesmos: é de lembrar que já vimos este filme, com deputados dos mesmos partidos elevados à categoria de estrela. Um exemplo da manipulação: uma das respostas mais reproduzidas da audição de Luís Filipe Vieira foi em resposta a uma pergunta do PCP, mas isto só soube quem acompanhou a audição, já que a opção assumida nas salas de edição das televisões foi não o mostrar.
Uma opção idêntica – e igualmente inaceitável – à que foi assumida pela televisão pública durante a chamada Cimeira Social do Porto. No mesmo dia, na mesma cidade, ao mesmo tempo em que dirigentes dos países da União Europeia levavam a cabo a cimeira repleta de brilho mediático mas vazia de progresso para os trabalhadores e os povos, realizaram-se iniciativas promovidas por dois partidos sobre a mesma temática, com participações dos seus principais dirigentes. Mas no momento de chegar ao alinhamento do Telejornal as semelhanças esfumaram-se e da iniciativa do PCP não houve nem referência nem imagem. Apenas um excerto da intervenção do Secretário-geral, descontextualizada e inserida numa peça em que também coube uma declaração avulsa do presidente do PSD, no final do noticiário. Pelo contrário, a outra iniciativa teve espaço no início do noticiário, devidamente enquadrada na realização da dita Cimeira Social, com a entrada em imagem e voz de vários dos participantes.
Coincidência ou não, a iniciativa em causa foi promovida precisamente pelo único partido que teve voz nos noticiários da RTP1 em notícias sobre a comissão de inquérito do Novo Banco.