Alcatrão, o sujo alcatrão
No dia 30 de Abril a refinaria da Galp em Matosinhos encerrou. Do futuro dos seus 450 trabalhadores pouco se sabe. Há promessas de reconversão dos postos de trabalho, mas há sobretudo a ameaça de despedimento colectivo. A Galp, tal como confirmou a Comissária Europeia Elisa Ferreira em resposta ao questionamento do PCP no Parlamento Europeu, prepara-se – tal como a EDP - para embolsar umas largas dezenas de milhões de euros de fundos comunitários em nome do ambiente e da dita descarbonização. Uma vez mais temos a UE a financiar o desmantelamento de capacidade produtiva nacional, desta vez com rótulo verde.
Uma coisa é certa, há que pagar dividendos aos accionistas (290 milhões de euros só em 2020) da GALP, mesmo quando há quebras nos lucros, ou até prejuízos, pelo que o desmantelamento de activos industriais, mesmo que estratégicos para o País, podem perfeitamente ser sacrificados no altar dos superiores interesses do capital. É também isso que pensa o Governo PS que suportou e preparou a decisão.
Não são conhecidos ainda todos os impactos deste crime. O Partido tem denunciado vários, incluindo para indústrias que dependem fortemente dos produtos refinados em Matosinhos. Entre eles está esse dado, para muitos desconhecidos: Matosinhos garantia a produção de quase 45% do alcatrão consumido em Portugal. Foi assim em 2020: das 224 000 toneladas de Betumes vendidos em Portugal a Galp assegurou perto de 100 000 ton, o resto foram importações. Sim, o alcatrão, mercadoria pouco simpática, de aspecto sujo e sem «certificado verde» mas fundamental para assegurar a nossa vida colectiva, passará agora a ser todo importado. Impactos no ambiente? Zero. Impactos para o País? Muitos.
Haverá quem diga que o País manterá outra refinaria em Sines e esta se poderá dedicar a este tipo de produção, mas pelo andar da carruagem, olhando para as opções da UE, da Galp e do Governo, o seu futuro está agora ainda mais ameaçado. E assim prossegue a política de substituição de produção nacional por importações. Uma política que nos tem amarrado à dependência e à dívida externa, destruído emprego e riqueza, fragilizado a soberania nacional. Uma política com a qual os trabalhadores e o Povo precisam de romper.