Colômbia insubmissa

Albano Nunes

O povo colombiano não se rende e vencerá

Quando a «América está de volta» agitando a bandeira dos «direitos humanos» e da «democracia liberal» de que os EUA seriam o supremo guardião; quando, com essa bandeira, a administração Biden procura arrastar os aliados da NATO, da UE e da Ásia/Pacífico para a sua cruzada contra a República Popular da China e quantos resistam ao seu diktat; quando em torno de uma chamada «cimeira das democracias» se prepara um novo salto na ofensiva ideológica destinada a ocultar a podridão da ordem capitalista e a dar cobertura ao avanço do fascismo e à política de ingerência e agressão do imperialismo, mais necessário se torna desmontar a falsidade e hipocrisia da propaganda da classe dominante.

Nem se trata da discussão de fundo sobre o conceito de democracia que, longe de se reduzir ao pluralismo político e a eleições mais ou menos livres, só será democracia autêntica se for simultaneamente política, económica, social e cultural num quadro de soberania nacional. Basta evidenciar aquilo que a comunicação social sistematicamente esconde, seja o negro historial de violência que forjou «democracias exemplares» como os EUA, Israel ou Coreia do Sul, seja a negra realidade em matéria de direitos políticos, sociais e humanos em países que, entretanto, são pilares da mundialização imperialista como – sem esquecer ditaduras como na Arábia Saudita, no Egipto ou na Ucrânia – é o caso da Colômbia.

Colômbia, país que pela mão de uma oligarquia profundamente reaccionária os EUA encheram de bases militares, associaram à NATO, transformaram na sua principal plataforma de ingerência na América Latina e base de permanente provocação e agressão contra a Venezuela Bolivariana. País onde o governo fascizante de Ivan Duque praticamente rasgou os acordos de Paz de Havana com as FARC-EP e em que os grupos paramilitares narcofascistas actuam em completa impunidade e diariamente são assassinados ex-guerrilheiros e activistas dos movimentos sociais. Segundo a Indepaz, só em 2020 houve 91 massacres e 381 assassinatos.

Ao mesmo tempo, intensifica-se a acção criminosa dos latifundiários com a expulsão dos agricultores das suas terras e o aumento da produção e tráfico de cocaína. Aqui temos um bom exemplo do que são para o imperialismo norte-americano a democracia e os direitos humanos. Um exemplo que o Público entende promover ao publicar (23.04.21) uma entrevista de duas páginas com o presidente da Colômbia e ao destacar em letras gordas o seu apelo à agressão militar à Venezuela.

Mas a Colômbia tem outra face que jornais como o Público escondem e nos cabe a nós destacar. É um país em que a luta dos trabalhadores e do povo constitui um extraordinário exemplo de insubmissão, de corajosa resistência à exploração e à repressão mais brutal, e até de criatividade quanto à diversidade e combinação das formas de luta popular e revolucionária em que o Partido Comunista Colombiano tem ocupado posição de vanguarda. Violentamente reprimida com a militarização do país, a Greve Nacional desencadeada em 28 de Abril contra a reforma fiscal, o pacote económico e a defesa da vida e da paz com justiça social, é mais um exemplo de que o povo colombiano não se rende e que acabará por triunfar.




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