O Império e a Independência Nacional

Manuel Gouveia

Foram recentemente destacadas publicamente umas declarações onde Ramalho Eanes afirmava «Sem Império dificilmente teríamos mantido a independência em certas épocas. Seríamos uma Catalunha “menos”». Estas declarações foram enquadradas na campanha reaccionária em curso, provavelmente mais do que o próprio autor o desejaria.

Aqui, Eanes está errado. Desde logo, naquele desastroso seríamos uma Catalunha menos. Porquê menos? Porquê este sentimento permanente de menoridade, de inferioridade face ao estrangeiro, tantas vezes mal disfarçada depois por patrioteiras palmadas no peito e estridentes e descrentes «somos os maiores»?

Depois, na ideia de ter sido o Império o garante da nossa Independência. Que Império tínhamos em 1128, 1139, 1140, 1143? E em 1383/85? Mas já havia Império em 1580, e quando do Ultimato. De cada vez que as classes dominantes traíram e trocaram a Independência nacional pela salvaguarda dos seus privilégios, quem garantiu a Independência Nacional? O povo português.

Recentemente, quando banqueiros e fascistas se revezavam nas Embaixadas dos EUA e de Espanha a pedir a invasão militar do nosso País, quem defendeu a independência nacional? Ou ainda mais recentemente, quando a grande burguesia nacional entregou partes crescentes da nossa soberania nacional à grande burguesia europeia, sentindo-se com essa traição mais segura de consolidar a contra-revolucionária reconquista dos seus privilégios, quem defendeu a independência nacional?

No passado, no presente e no futuro, o povo português é o garante da Independência Nacional. Um povo que é o produto dessa história, da incorporação de gentes mais diversas, que aqui chegaram, voluntária ou involuntariamente, e aqui passaram a viver e pertencer. Um povo que aprendeu à sua própria custa que nunca é livre um povo que oprime outros povos. Um povo que soube libertar-se do Império, numa madrugada inesquecível e nas belas manhãs que se lhe seguiram.




Mais artigos de: Opinião

Criminoso bloqueio

Pelo seu conteúdo, os «resultados preliminares da visita à República Bolivariana da Venezuela» (realizada de 1 a 12 de Fevereiro), apresentados pela «relatora especial da ONU sobre o impacto das medidas coercivas unilaterais no exercício dos direitos humanos», representam uma importante denúncia do crime contra o povo...

Crimes sem castigo

A 30 de Janeiro começou em França o julgamento de várias multinacionais da indústria química (entre elas a Bayer-Monsanto e a Dow Chemical) que venderam aos EUA o Agente Laranja utilizado massivamente como desfolhante na agressão militar ao Vietname: estima-se que entre 1961 e 1971 tenham sido despejados sobre as...

Comemorar o Centenário do PCP garantindo uma melhor intervenção

No próximo dia 6 de Março, o Partido Comunista Português faz 100 anos. Marco histórico na vida do Partido e na luta da classe operária, dos trabalhadores e do povo português, são 100 anos de acção e de luta, sempre com os trabalhadores e o povo, pela Liberdade, a Democracia e o Socialismo.

São precisas respostas abrangentes

São múltiplos os efeitos da epidemia COVID-19 na saúde (física e mental), mas muito grande é também o seu impacto na situação económica, social e cultural do País: desde os despedimentos, aos cortes nos salários, à desregulação dos horários de trabalho, ao teletrabalho, ao ensino à distância, à grave situação que...

Ai aguenta, aguenta – parte 2

«É preciso relativizar o confinamento. ‘Mal estão os que morrem e os que estão nos cuidados intensivos’. Para os restantes ‘é uma experiência’, que vai passar e que pode não deixar tantas marcas negras como vaticinam os mais pessimistas» - quem escreveu a pérola foi Rosália Amorim, directora do Diário de Notícias, no...