Navalny, ficção e realidade

Luís Carapinha

Navalny é hoje a carta renovada dos abutres e agenda imperilista

Em ano de eleições para a Duma, o ruído em torno de Navalny é ensurdecedor. Os arautos da democracia, que há 30 anos cunhavam Iéltsin em herói do combate contra a tirania, não poupam nos encómios ao dirigente que se estreou na política no partido de Yavlinsky – conhecido no final da URSS pelo programa de 500 dias [de conversão ao capitalismo] -, tornando-se depois seu rival na missão de restituição do moribundo ‘campo liberal’, absorvido pelo Rússia Unida. O delírio e a mentira cruzam-se na mistificação de Navalny, convertendo-o em aríete de uma perigosa campanha de ingerência e pressões externas contra a Rússia. Como que à maneira de um romance de Le Carré, a falsa narrativa saída das centrais do pensamento dominante retrata-o como «líder da oposição», intrépido activista «contra a corrupção», defensor da «liberdade e democracia» e vítima, mais que certa, de tentativa de assassinato do «regime de Pútin», apesar de todas as dúvidas e interrogações levantadas por este obscuro caso.

Não se nega que, na era das redes sociais e novas tecnologias de manipulação em massa, o projecto Navalny é hábil na instrumentalização de reais sentimentos de injustiça e insatisfação social. Contudo, goste-se ou não, a principal força da oposição na Rússia, no plano institucional e de organização à escala nacional e regional, é o Partido Comunista da Federação Russa. Nenhuma das forças políticas pelas quais passou Navalny está representada na Duma. Apesar do embrulho social, o seu programa liberalizante de mais privatizações e liberdade para o capital e uma política externa enfeudada aos interesses dos patronos ocidentais (o sonho de retorno aos tempos áureos de destruição da soberania com Kozyrev no MNE russo), não põe em causa, pelo contrário, a restauração capitalista na Rússia. A construção do mito varre para debaixo do tapete as incómodas conotações de Navalny com a extrema-direita e as posições xenófobas e apologia do «nacionalismo cívico», na definição do próprio. A imagem fabricada de líder impoluto e mártir empalidece no confronto com a realidade. Constitui um insulto à luta de sindicalistas e dirigentes de esquerda perseguidos e repetidamente encarcerados, desde as mobilizações sociais de 2011. O fundo contra a corrupção de que Navalny, já condenado em dois processos por corrupção, é o principal rosto tem entre os seus financiadores alguns dos principais oligarcas russos. Os mesmos que construíram a sua fortuna enquanto Iéltsin e Gaidar se encarregavam da democratização da Rússia sob aplauso ocidental, com a terapia de choque e a maior pilhagem do erário público da história. A sanha democrática foi tal que, além do desastre social, acabou no assalto ao parlamento a fogo de tanque, em 1993, e na mega-chapelada eleitoral que reelegeu em 1996 Iéltsin. Na Ucrânia, a Maidan contra a corrupção promovida pelos EUA e UE acabou com os neonazis incorporados ao poder. Nada disso interessa aos arautos da democracia. Na Rússia nem é sequer segredo de polichinelo a aposta em Navalny para tentar esvaziar o potencial de protesto à esquerda. O líder comunista lembrou há dias na Duma que foi o partido do poder que ajudou a recolher as assinaturas de Navalny nas eleições para a câmara de Moscovo sob direcção de «uma das torres do Kremlin»… Navalny é hoje a carta renovada dos abutres e agenda imperialista que olham a Rússia como elo mais fraco a quebrar. Cabe desmascarar os seus objectivos estratégicos e alertar para as ameças à paz que coloca.



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