«A América está de volta»?

Ângelo Alves

Pontuado com críticas ao seu antecessor, o primeiro discurso de Biden sobre política externa alimenta a ideia de que a «América está de volta» e de que estamos perante uma ruptura com a anterior Administração. Contudo a realidade é diferente. Se é verdade que são corrigidos tiros relativamente ao Acordo de Paris e à OMS, e é renovado por cinco anos o Acordo START com a Rússia, o que que é já perceptível, nos discursos, acções e decisões da Administração Biden é que as mudanças em curso não consistem numa alteração de objectivos, mas sim de táctica.

A Administração Biden está a recuperar as teses do «Soft Power», do «músculo da democracia» e do relançamento do «eixo transatlântico». É reafirmada, sob novas vestes, a «aliança das democracias», direccionada contra dois alvos estratégicos: China e Rússia. O objectivo central é recuperar iniciativa e estabelecer «alianças» para conter e confrontar sobretudo a China, identificada como o «mais sério competidor» dos EUA. As provocações de França, anteontem, no Mar do Sul da China podem ser o sinal de que a «aliança» já está oleada.

Vamos ouvir falar mais de «direitos humanos» e «valores democráticos» para justificar novas formas de afirmação da «liderança da América». Entretanto, o apoio a ditaduras como a Arábia Saudita, continua; o Iémen pode ser ocupado com «forças de paz» e pela USAID; as linhas de confrontação com o Irão vão-se manter, apesar de novos contornos; o apoio a Israel é sagrado; os Acordos de Abraham (de «normalização das relações com os países árabes») é para manter; a Embaixada dos EUA em Jerusalém continuara lá; o DAESH está a intensificar a sua acção terrorista, treinada e financiada a partir de bases norte-americanas na Síria; as sanções contra a Venezuela podem ser intensificadas e Guaidó continua a ser «reconhecido» como «presidente». As forças militares serão reposicionadas «alinhando-as com a política externa e as prioridades de segurança nacional» e os milhares de militares dos EUA na Alemanha são pra manter. «A América está de volta»?. Não. Continua, igual a si própria.




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