Proibido
A pandemia tem as costas largas, como toda a gente sabe, mas há limites para tudo. O que está a suceder na comunicação social, no que à COVID-19 diz respeito, vai para além do absurdo. E não, não me refiro às reportagens (?) sobre o transporte de vacinas, ou de contagem de mortos, ou de ambulâncias paradas às portas dos hospitais, nem sequer da multiplicidade de histórias ao melhor estilo da saga «ai que sede que eu tenho», «ai que sede que eu tinha», ou dos infindáveis especialistas que todos os dias descobrem a pólvora para tirar o mundo do sufoco, seja em relação à saúde, ao ensino ou à economia. Não, a coisa vai mais longe, numa demonstração clara de que, ao contrário do que se julga, não há limites quando se trata de bater no fundo. Ou, dito de outro modo, que é sempre possível cair mais fundo quando se trata de dislate.
O caso ocorreu esta semana e chegou via televisão, num daqueles pacotes que as agências internacionais distribuem para todo o mundo, que é a forma de garantir que ninguém escapa à imbecilidade. As imagens mostravam o presidente do México, López Obrador, que esteve infectado com o vírus SARS-CoV-2, a advogar que o uso da máscara deve ser voluntário e não obrigatório, não obstante o país ser o terceiro, a nível mundial, com mais vítimas mortais devido ao coronavírus, só atrás dos EUA e do Brasil.
«É proibido proibir!», clamava Obrador nas imagens que nos entraram em casa, sem que ninguém tivesse feito o favor, ou melhor dizendo, o serviço público, de esclarecer para a demagogia do uso de tais palavras e para o abuso que representa a sua utilização no contexto em causa.
Alguém nas televisões tem de saber que «É proibido proibir!» é uma frase com história que ficou gravada nas paredes da Sorbonne, em Paris: «Il est interdit d’interdire!».
O que tem a pandemia da COVID-19 a ver com o Maio de 68 em França, a revolta que começou como uma contestação estudantil e se estendeu a outros sectores sociais, laborais e culturais franceses e acabou por ter repercurssões em toda a Europa e muitos outros países, dos EUA ao Japão? Obviamente, nada.
Símbolo do protesto estudantil e popular, «É proibido proibir!» exprime, mais do que uma palavra de ordem política, uma aspiração de mudança social e comportamental.
Que o presidente do México a tenha usado levianamente, só lhe fica mal; que a comunicação social o tenha divulgado, como se de uma boutade se tratasse, sem um comentário e/ou contextualização, é bem revelador do estado a que isto chegou.
Se Maio de 68 mostrou, como disse então um filósofo francês, que o «subterrâneo da sociedade é um campo minado», esta lamentável história (mais uma) mostra que ser pé de microfone ou papagaio falante pode servir para muita coisa, mas não serve nem dignifica a informação. Devia ser proibido.