Interior: somam-se os anúncios, silenciam-se os resultados!

Patrícia Machado (Membro da Comissão Política)

Cada vez que fa­lamos do cha­mado In­te­rior nunca é de­mais o alerta para o olhar sobre o mesmo. É ne­ces­sário con­ti­nuar a in­sistir que os pro­blemas exis­tentes nestes ter­ri­tó­rios não lhe são ine­rentes, mas con­sequên­cias de po­lí­ticas se­guidas. E a in­sis­tência a que as­sis­timos é a per­pe­tu­ação de mo­delos que visam gerir o seu «na­tural de­clínio»em vez de o in­verter.

Como in­verter a perda de po­pu­lação sem criar postos de tra­balho?

Re­cen­te­mente foram anun­ci­ados o Pro­grama de Ex­pansão de Pro­jetos de Am­pli­tude Na­ci­onal para o De­sen­vol­vi­mento do In­te­rior (Ex­pandir) e o Pro­grama de Do­tação Ope­ra­ci­onal de Ter­ri­tó­rios e Apoio à Re­va­lo­ri­zação (Dot@r), apro­vados pelo Con­selho de Mi­nis­tros a 14 de De­zembro de 2020.

Ambos os pro­gramas, a exemplo de tantos ou­tros que foram lan­çados ao longo de anos, en­chem pa­rá­grafos de in­ten­ções para «po­ten­ciar, di­na­mizar, in­cen­tivar» e mais umas quantas ex­pres­sões que es­ti­mulam a von­tade de saber como irá então isto acon­tecer. A questão é que a forma como as­so­ciam os meios ou o seu per­curso torna com­pli­cado não le­vantar pre­o­cu­pa­ções quanto aos seus reais re­sul­tados. Quando ob­ser­vados, per­cebe-se que a forma, a con­cepção, a apro­vação e a im­ple­men­tação dos pro­jectos ca­recem de re­gu­la­men­tação pos­te­rior, sem co­nhecer o vo­lume de fi­nan­ci­a­mento que vão ter.

Afirma-se que estes pro­jectos serão de­se­nhados no quadro do PT 2030. Então é ne­ces­sário ques­ti­onar: se ainda não está de­fi­nida a abor­dagem que o PT 2030 irá dar às ques­tões ter­ri­to­riais; se ainda não estão de­fi­nidas a or­ga­ni­zação e con­teúdos dos Pro­gramas Ope­ra­ci­o­nais Re­gi­o­nais; por que saem ini­ci­a­tivas le­gis­la­tivas iso­ladas com im­pactes sobre esta ma­téria e an­te­ci­pando op­ções (no­me­a­da­mente no de­senho ter­ri­to­rial das in­ter­ven­ções) sem saber como é que vão estar ar­ti­cu­ladas e con­ju­gadas com as op­ções de or­ga­ni­zação ter­ri­to­rial dos pro­gramas e in­ter­ven­ções do PT2030?

Op­ções claras
e con­cre­ti­zação

Anuncia-se pro­jectos pi­loto com ter­ri­tó­rios pré-de­fi­nidos e te­má­ticas já pré-es­ta­be­le­cidas, fi­cando de­pen­dente para o seu êxito a ca­pa­ci­dade ins­ti­tu­ci­onal ins­ta­lada nos ter­ri­tó­rios. Temos assim, por um lado um ponto de par­tida in­qui­nado, e por outro a ne­ces­si­dade de saber qual a opi­nião dessas re­giões sobre essa de­fi­nição e o porquê de re­fe­ren­ciar apenas certos ter­ri­tó­rios.

Por exemplo, o porquê da con­si­de­ração de Vilar For­moso, Guarda, Al­meida e o Alto Minho, como «pla­ta­formas de acesso ao mer­cado ibé­rico e não Idanha-a-Nova, Elvas ou Bar­rancos? Ou ainda Évora e Ponte de Sor como «cen­tros de eco­nomia do mar» e re­giões como o Li­toral Alen­te­jano es­tarem to­tal­mente ex­cluídas.

Sa­bemos também que os úl­timos dados do re­cen­se­a­mento agrí­cola con­firmam o de­sa­pa­re­ci­mento de cerca de 16 mil ex­plo­ra­ções – e sobre o es­ta­tuto da agri­cul­tura fa­mi­liar nem uma pa­lavra quanto à sua con­cre­ti­zação. Não des­va­lo­ri­zando, e pro­cu­rando acom­pa­nhar no que se vai tra­duzir me­didas como a «me­lhoria na rede de trans­portes pú­blicos» em re­giões cla­ra­mente de­fi­ci­tá­rias nesta ma­téria, não se pode deixar de ques­ti­onar o que re­pre­senta para o Go­verno so­lu­ções con­tidas como o te­le­tra­balho para a «re­so­lução das li­mi­ta­ções para o mer­cado de tra­balho» ou a pro­moção de «uni­dades mo­veis de saúde».

Como pensa o Go­verno in­verter a perda de po­pu­lação que se prevê con­ti­nuar em queda nestes ter­ri­tó­rios* sem o re­forço dos ser­viços pú­blicos ou da ca­pa­ci­dade pro­du­tiva, com con­se­quente cri­ação de postos de tra­balho com di­reitos?

Num País com 200 qui­ló­me­tros de lar­gura, com uma lo­ca­li­zação es­tra­té­gica entre o mar e o resto da Eu­ropa, o PCP en­tende exis­tirem so­lu­ções e po­ten­ci­a­li­dades de de­sen­vol­vi­mento que, mais do que anún­cios, pre­cisam de op­ções claras e da res­pec­tiva con­cre­ti­zação.

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*Se­gundo os anuá­rios es­ta­tís­ticos do INE, pu­bli­cados a 17 De­zembro 2020 sobre Po­pu­lação Re­si­dente entre 2011 e 2019, as re­giões pre­do­mi­nan­te­mente ru­rais têm taxas de cres­ci­mento de taxa ne­ga­tiva abaixo de -1%.




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