• António Santos

Trump, trumpismo e classe dominante

Abandonados e destapados os planos golpistas, cada vez mais apertado na tenaz institucional da classe dominante, o presidente dos EUA contorce-se em movimentos políticos cada vez mais esdrúxulos, ora ridículos ora alarmantes, mas são os últimos estertores: no dia 20, por vontade da classe que pariu Trump, Biden tomará posse.

As muitas bocas do aparelho de Estado da burguesia falaram a uma só voz: a Câmara do Comércio, pitonisa da vontade histórica do capitalismo estado-unidense, condenou a intentona de Trump para subverter os resultados das eleições que deram uma vantagem de 7 milhões de votos a Biden; o Supremo Tribunal, estofado de juízes conservadores, rejeitou todos os processos de fraude eleitoral; as forças armadas, representadas numa carta assinada por todos os ex-secretários da Defesa vivos, manifestaram-se contra a utilização do exército para «resolver disputas eleitorais» e mesmo o Congresso, cuja câmara alta está dominada pelos republicanos, atropela já os vetos presidenciais.

Nestas circunstâncias, de pouco servirá a Trump contestar a contagem, pelo Congresso, dos votos do Colégio Eleitoral; de menos ainda servirá que o vice-presidente, Pence, se recuse a cumprir a cerimonial função de anunciar o vencedor e de nada servirão as pressões e ameaças de Trump sobre os governantes republicanos estaduais de que foi apenas um flagrante exemplo a revelação nixoniana da gravação de uma mafiosa chamada telefónica com o Secretário de Estado da Georgia, Brad Raffensperger.

A Trump, resta-lhe, passe o trocadilho, um último grande trunfo: as massas. 75 milhões de consciências manipuladas para além dos factos, da ciência e da palavra, que confere ao messias de turno um poder tão volátil como plástico. Com essas massas nas ruas, Trump poderá tentar manter a sua periclitante hegemonia sobre o partido do elefante, partir o partido ao meio para liderar o seu próprio culto proto-fascista da personalidade ou até mergulhar o país no caos, justificando uma declaração de insurreição até dia 20 e tornando o país ingovernável, profundamente dividido em linhas estaduais antebellum, depois dessa data. A manifestação desta quarta-feira (posterior à redacção deste texto) será o ensaio geral.

Seja como for, o Trumpismo sobreviverá para além de Trump como saída de emergência para importantes camadas da classe dominante. A caixa de Pandora foi novamente aberta, o fascismo faz sombra sobre a terra.




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