ObviaMente

Anabela Fino

O bruaá em torno do XXI Congresso do PCP teve a peculiar característica de se centrar no facto de o Partido, que mesmo sob a ditadura não deixou de reunir os seus órgãos estatutários, o ter feito em pleno regime democrático e conforme a legislação respeitante ao  regime do estado de emergência.

Após dias e dias de escarcéu em torno do assunto, com muito cão de guarda dos media do capital a defender que se varresse a lei para debaixo do tapete e se actuasse em função da «percepção» que Marcelo Rebelo de Sousa arvorou em bitola governativa, eis que o alarido atingiu o clímax com Rui Rio, que em declarações à TVI disse que, se fosse primeiro-ministro, «obviamente» impediria a realização da reunião magna dos comunistas.

Acusando o PCP de «arrogante», Rio não hesitou em mentir ao dizer que as «regras são iguais para todos, menos para o PCP», como se não soubesse que o regime do estado de emergência estipula que as «reuniões dos órgãos estatutários dos partidos políticos, sindicatos e associações profissionais não serão em caso algum proibidas, dissolvidas ou submetidas a autorização prévia».

Obviamente não há nada de novo nesta postura de Rui Rio, a quem não repugnava que o primeiro-ministro e o Presidente da República cozinhassem um esquema que mandasse às urtigas a legislação em vigor ou à pressa aprovassem outra que desse mais uma machadada nos direitos e liberdades conquistados com o 25 de Abril.

Obviamente também só por ingenuidade se pode acreditar que as declarações de Rio têm alguma coisa a ver com a pandemia. Basta um olhar breve pelo discurso do «homem sério que faz de conta que não é político» para perceber que a sua essência antidemocrática.

«Este regime tem rigorosamente o mesmo tempo do que o Estado Novo quando caiu. O Estado Novo caiu de podre. Este não está assim, mas está muito desgastado pelo tempo. Ele pode acabar», afirmava Rio em 2017, o mesmo Rio que um ano antes não hesitava em dizer que, «comparando, o sistema de Justiça está menos capaz de defender os direitos dos cidadãos do que estava há 40 anos [durante o fascismo]».

O homem que se fosse primeiro-ministro «obviamente» proibiria o congresso do PCP é o mesmo que advoga que o «regime que estamos a viver já tem muito pouco de democrático»; que há um ano afirmava ser quase um «impossibilidade» estabelecer um «contrato de confiança entre os portugueses e a política»; e que não teve pejo em afirmar com todas as palavras: «onde é que nós algum dia em Portugal tivémos fascismo?»

Na verdade, o que é óbvio e muitos fazem de conta ainda não ter percebido é que Rui Rio mente quando se afirma um social-democrata que pretende recolocar o PSD ao centro do espectro político. A aliança com o Chega nos Açores não é um acidente. É um indício, e muito claro.




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