O regresso de Evo

Luís Carapinha

O imperialismo e a oligarquia boliviana não puderam impedir a vitória do MAS

Construção heróica diria provavelmente Mariátegui da resistência, organização e perseverança das forças populares bolivianas que asseguraram, um ano após o bárbaro golpe de Estado que obrigou à saída de Evo Morales, o triunfo incontestável do MAS nas eleições presidenciais e legislativas de 18 de Outubro e a reconquista do poder.

Um destacado intelectual e dirigente anti-imperialista boliviano resumiu em quatro factores a chave da «vitória estratégica» que permite retomar o legado de quase 14 anos do processo de revolução democrática e cultural na Bolívia: «a recomposição da força organizada do povo, a liderança de Evo, a força renovadora de Lucho e David [referindo-se a Luis Arce e David Choquehuanca, candidatos vencedores e actuais presidente e vice-presidente] e um projecto de país que a direita não tem». Este é o desfecho que o imperialismo norte-americano e a encarniçada reacção boliviana não puderam impedir.

Mas até às vésperas da tomada de posse de Arce tentaram em vão um novo golpe e a transferência de poder da presidente usurpadora Áñez para uma junta militar, apesar dos números contundentes da vitória nas urnas do MAS, superando os resultados do triunfo roubado das eleições de 2019 sob a falsa acusação de fraude.

Valeu a vontade popular e um dia depois de Luis Arce ter assumido no Palácio Quemado Evo Morales regressou do exílio. Ao longo de um périplo de mais de 1100 quilómetros, o primeiro presidente indígena do país da América Latina com maior peso de população indígena foi massiva e entusiasticamente aclamado. Em Chimoré, no local donde sob risco de vida a 11 de Novembro de 2019 partira para o México (e depois Argentina), discursando perante cerca de um milhão de pessoas lembrou algumas das razões vitais do golpe orquestrado pela Casa Branca: «as transnacionais não nos perdoaram ter recuperado os nossos recursos naturais (…) foi um golpe ao nosso modelo económico e, especialmente, um golpe ao lítio», aludindo ao mineral estratégico de que o pais do Altiplano é detentor do maior depósito mundial. Um golpe tanto mais abominável porquanto os anos de governo do MAS encarnaram o processo emancipador mais marcante da história da Bolívia. Em contramão ao modelo económico e receitas neoliberais do grande capital, apostando na melhoria das condições de vida dos mais desfavorecidos e no fortalecimento do mercado interno, o PIB da Bolívia cresceu a uma média anual de 4.7% durante os anos de governo de Evo. Os níveis de pobreza reduziram-se substancialmente.

Um ano de governo da oligarquia produziu feridas profundas. Repressão, massacres e racismo complementam-se com a recessão cavada, endividamento, corrupção e saque de bens públicos, ataque e paralisação de empresas estatais e restauração de uma política externa enfeudada aos ditames de Washington.

Da actual urgência económica e social à acção subversiva da extrema-direita e reacção, são enormes os desafios e ameaças com que se depara o novo Executivo de La Paz. Haverá que tirar lições da queda de 2019 e cuidar da unidade das forças sociais que suportam o governo progressista de Arce, a nova missão assumida por Evo à frente do MAS. Sendo certo que a vitória agora alcançada tem um significado transcendente para a luta dos povos em curso na América Latina e Caraíbas. Que segue agora com as eleições de 6 de Dezembro na Venezuela.




Mais artigos de: Opinião

ObviaMente

O bruaá em torno do XXI Congresso do PCP teve a peculiar característica de se centrar no facto de o Partido, que mesmo sob a ditadura não deixou de reunir os seus órgãos estatutários, o ter feito em pleno regime democrático e conforme a legislação respeitante ao  regime do estado de emergência. Após dias e dias de...

Grandes causas… do atraso

Perorando (e divagando) sobre Portugal, João Miguel Tavares (JMT) afirmava recentemente que «Portugal é cada vez mais o Rabo de Peixe da Europa» e, dado o mote, lá defendia a tese que, depois dos grandes desígnios nacionais que se traduziram nas grandes lutas travadas em três décadas consecutivas – a democracia, na...

Coitadinha da Galp

A Galp distribuiu, já este ano, apenas 574 milhões em dividendos aos seus accionistas. Forçados a viver com alguns míseros milhões de euros por mês, os accionistas da Galp viram-se na obrigação de propor rescisões amigáveis a centenas de trabalhadores. Só quando alguns desses trabalhadores recusaram aceitar o seu...

Gangsters e patriotas

Se Clausewitz testemunhasse os crimes cometidos ou incentivados pelo gang imperialista/sionista, complementaria a sua célebre formulação com uma outra: «O assassínio é a continuação da política por outros meios.» Com o recente assassínio de Mohsen Fakhrizadeh são seis os cientistas nucleares iranianos alvo desde 2010:...