Grandes causas… do atraso

Manuel Rodrigues

Pero­rando (e di­va­gando) sobre Por­tugal, João Mi­guel Ta­vares (JMT) afir­mava re­cen­te­mente que «Por­tugal é cada vez mais o Rabo de Peixe da Eu­ropa» e, dado o mote, lá de­fendia a tese que, de­pois dos grandes de­síg­nios na­ci­o­nais que se tra­du­ziram nas grandes lutas tra­vadas em três dé­cadas con­se­cu­tivas – a de­mo­cracia, na dé­cada de 70; um Por­tugal eu­ropeu na de 80; e, na de 90, a «per­tença ao “pe­lotão da frente” e pela adesão à moeda única» – pas­sámos à con­dição de in­di­gentes e sub­si­di­o­de­pen­dentes, sempre à es­pera dos fundos da UE, que JMT es­tima terem sido, entre 1986 e 2018, de 130 mil mi­lhões de euros.

Re­me­tendo Por­tugal para a con­dição fatal de país con­de­nado a ser «cada vez mais o fundo do fundo da po­breza eu­ro­peia», JMT de­monstra a sua ver­da­deira opção pela ide­o­logia do­mi­nante ao não vis­lum­brar na­quilo que de­signa por grandes causas dos anos 70, 80 e 90 uma das mais pro­fundas raízes dos pro­blemas com que es­tamos con­fron­tados: pri­meiro, porque a luta por um Por­tugal de­mo­crá­tico – para o PCP, para os tra­ba­lha­dores e para o povo por­tu­guês – não co­meçou na dé­cada de 70: atra­vessou todo o pe­ríodo dos 48 anos de di­ta­dura fas­cista e con­tinua hoje contra todos aqueles que a querem li­mitar ou li­quidar; em se­gundo lugar, porque a luta por um Por­tugal eu­ropeu (leia-se, sub­me­tido à CEE/​União Eu­ro­peia) faz parte do pro­blema e não das so­lu­ções. Ou seja, foi a sub­missão à UE (leia-se, à Eu­ropa dos mo­no­pó­lios) e às suas im­po­si­ções que levou, entre muitos ou­tros ma­le­fí­cios, à des­truição do nosso apa­relho pro­du­tivo, ao ele­vado en­di­vi­da­mento ex­terno e à perda de im­por­tantes par­celas da so­be­rania. Ter­ceiro, porque per­tencer «ao pe­lotão da frente» mais não sig­ni­ficou do que o apro­fun­da­mento ga­lo­pante de uma po­lí­tica de di­reita as­sente na ex­plo­ração, contra os di­reitos dos tra­ba­lha­dores e do povo, res­pon­sável por todos os grandes pro­blemas na­ci­o­nais que es­tamos a viver.

À visão fa­ta­lista de JMT opõe-se na­tu­ral­mente a visão con­fi­ante de quem luta por um Por­tugal de­sen­vol­vido, so­be­rano e de pro­gresso so­cial. E por mais que custe aos ideó­logos da po­lí­tica de di­reita, é essa visão que, mais cedo ou mais tarde, de­ter­mi­nará o rumo de um Por­tugal de­sen­vol­vido e com fu­turo.




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