Decadência perigosa

Jorge Cadima

A mudança necessária não virá de presidentes ao serviço do imperialismo

Quando estas linhas foram escritas não se conheciam os resultados das eleições presidenciais nos EUA. Talvez assim seja também quando forem lidas. Mas independentemente dos resultados, há comentários possíveis.

A eleição de Trump em 2016 foi um reflexo da decadência dos EUA. A sua Presidência acentuou essa decadência. Há anos que se agrava a crise social. Grande parte do povo da maior potência capitalista vive na pobreza, mesmo que tenha um emprego. Ao mesmo tempo, a classe dominante acumula riquezas obscenas. As desigualdades atingem níveis sem precedentes desde há muitas décadas. O desastre da COVID-19 nos EUA reflecte o desdém e a tentativa de Trump de politização anti-China da epidemia. Mas reflecte bem mais do que isso: a inexistência dum serviço nacional de saúde e de direitos laborais básicos como baixas médicas e os níveis gritantes de pobreza. A situação financeira do país é insustentável, com um endividamento astronómico. Mas o endividamento (lá como cá) serve para engordar o grande capital financeiro e as bolsas. E para alimentar a máquina militar, securitária e de guerra que tenta impor a hegemonia mundial dos EUA.

A eleição de Trump em 2016, tal como a eleição de Obama, deveu-se em parte a um profundo descontentamento e vontade de mudança. Muitos acreditaram no falso discurso anti-sistema, nas proclamações de «drenar o pântano», nas falsas promessas de pôr fim às aventuras militares. Claro que a realidade foi bem diferente. Por debaixo da radicalidade do discurso anti-sistema escondeu-se sempre um candidato do sistema, que engordou ainda mais o grande capital e que nutre abertamente forças fascistas e racistas e uma violência policial sem freios, para impor a submissão no plano interno. A agressividade externa dos EUA não diminuiu, pelo contrário, como se constata no Irão, Venezuela, Bolívia, Palestina, Cuba, Síria, Iémen ou Bielorrússia. A campanha contra a China, ‘culpada’ pelo seu desenvolvimento económico e social e crescente papel no mundo, está a conduzir o planeta para uma crise que poderá ter desfechos dramáticos.

Os violentos embates entre sectores da classe dominante dos EUA incidem sobre como travar a decadência e manter a posição dominante dos EUA no mundo. Trump aposta no confronto generalizado, sem excluir os seus aliados, para impor a submissão. Registou êxitos no que respeita à subordinação da UE. Prepara um embate de grandes proporções com a China. Mas a ascensão de Trump foi alimentada por décadas de guerras, crimes e violências, incluindo as guerras contra a Síria e a Líbia, o golpe dos fascistas ucranianos, o cerco à Venezuela e a confrontação com a Rússia, desencadeadas sob a Presidência Obama e com Biden na Vice-Presidência. Políticas que, no fundamental, prosseguirão em caso de vitória de Biden. Ou de Trump. Porque são as políticas do sistema.

A mudança necessária não virá de presidentes ao serviço do imperialismo norte-americano. A mudança só poderá vir da luta dos trabalhadores e povo dos EUA, parte integrante da luta dos povos do mundo. Uma luta que teve nos últimos meses momentos de grande expressão, e que são um factor de encorajamento para o futuro, sejam quais forem os resultados das eleições.




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