Borlas do capital
A campanha eleitoral para as eleições para Presidente da República já começou. Até se pode dizer que, para alguns, começou há muito. Seja no exercício do cargo por quem o exerce, seja na disputa por espaços de comentário televisivo ou na imprensa escrita, algumas das candidaturas já assumidas ou ainda mal escondidas vêm marcando terreno.
O que estão a fazer os principais órgãos de comunicação social para cobrir a actual campanha eleitoral? A resposta é pouco mais que nada. Ou, em rigor, estão a ignorar o grosso das iniciativas de campanha em si enquanto tudo o resto se mantém. Foi facílimo a Ana Gomes anunciar a suspensão das iniciativas nos últimos dias: a sua campanha passa mais pela SIC Notícias do que pela rua, a que foi juntando incursões recentes em programas da manhã ou da tarde que, sob a capa de entretenimento, vão fazendo (e desequilibrando) mais por algumas campanhas que os espaços de informação. Como para Marcelo é interessantíssimo fazer da sua candidatura o segredo que todos conhecem: para quê dar-se ao trabalho da disputa eleitoral se o mediatismo lhe está garantido?
Um dos principais recursos para certo perfil de candidatos é a exposição mediática de que gozam «de borla»: seja pelas funções que exercem, seja por critérios de mediatismo um tanto arbitrários – por isso mesmo, os presidentes em exercício adiam até ao limite o anúncio de recandidatura, como vemos por estes dias. E por isso é tão importante a campanha eleitoral, se os critérios que determinam a sua cobertura mediática passarem pela isenção e igualdade de oportunidades entre candidaturas. Desta forma, poderíamos ter em confronto as várias candidaturas e o que se propõem fazer no importante cargo de Presidente da República.
No caso, a opção dos órgãos de comunicação social pelo manto de silêncio corresponde a fazer a campanha de uns – os que têm exposição mediática «de borla» – ao mesmo tempo que escondem quem está no terreno – a candidatura de João Ferreira.
A desigualdade dos meios nesta batalha é tremenda, e não apenas no plano mediático. Mas neste é bastante visível. Ana Gomes mantém um espaço de comentário televisivo na SIC. Outra, Marisa Matias, depois de mais de dois anos como comentadora residente na TVI, tem agora lugar cativo nas páginas do Diário de Notícias. Parece que a experiência profissional de Marcelo antes de se mudar para o Palácio de Belém passou a ser, na cabeça de alguns, requisito para candidaturas presidenciais (de tal forma que é nos ecrãs televisivos das noites de domingo que alguns procuram futuros candidatos).
À superfície dirão que a igualdade de oportunidades entre todas as candidaturas está assegurada quando não há cobertura mediática de nenhuma. Mas não é por usar o chapéu de deputado, comentador, especialista em qualquer coisa, ou mesmo de Presidente quando aparece na televisão que um candidato deixa de o ser.