Artistas contra o medo
Já vimos artistas reunidos contra a fome, artistas reunidos contra o racismo, artistas reunidos contra a xenofobia, artistas reunidos contra o fascismo, artistas reunidos contra a homofobia, artistas reunidos contra a poluição. Desta vez, sem que ninguém precisasse de o anunciar ou de o explicar, o que vimos e ouvimos no Palco 25 de Abril foi uma reunião onde os artistas se proclamaram, unânimes, contra o medo.
«Podia dizer imensas coisas sobre a noite de ontem na Festa do Avante!, mas vou apenas dizer que cultura é resistência, é liberdade, é saúde mental e é uma das vias mais importantes para (com todos os cuidados) voltarmos à normalidade possível antes que seja tarde demais. Obrigada a todos!» Estas frases, deixadas domingo numa rede social por Capicua, como legenda a um vídeo da actuação da artista, na véspera, no Palco 25 de Abril (que teve Lena d’Água como convidada), sintetizam bem a mensagem comum aos 17 espectáculos ali ocorridos, entre sexta-feira e domingo.
Exemplos da repetição, sistemática, dessa mensagem? Houve imensos.
Scúru Fitchádu reclamou-se do lado antifascista, convidou Chullage a Cachupa Psicadélica para atuarem com ele e saudou o facto de «esta Festa! estar de pé». «Por esta é que eles não esperavam», disse, em tom sarcástico, a propósito das críticas ao PCP por promover em ano de COVID-19 a sua iniciativa político-cultural.
Antes deles, nesse princípio de tarde de sábado, Zebra Libra e Model Mother Tongue, grupos da lista de vencedores do Concurso de Bandas deste ano promovido pela JCP, enfrentaram com determinação e música pertinente o calor escaldante e iniciaram a sucessão de agradecimentos do dia por terem esta oportunidade de trabalhar. Logo a abrir ouviu-se uma citação em guitarra eléctrica da canção revolucionária, Bella Ciao.
Marta Ren trouxe uma voz impressionante, uma banda fantástica e frases como estas: «Obrigada por me terem deixado voltar ao palco para fazer o que gosto.» No final, Marta explicou o que seria, para ela, o êxito desta edição da Festa!: «provar hoje que os espectáculos podem continuar a acontecer. Haja amor, saúde e resiliência.»
Seguiu-se Mão Morta, a mostrar canções comoventes sobre a agressão à decência humana que os mais frágeis enfrentam no dia-a-dia. Uma delas, Hipótese do Suicídio, espelho de desespero, ilustra no refrão a fragilidade do indivíduo abandonado à sua própria sorte: «Enxovalhado no trabalho/ mal tratado na doença/ Humilhado no salário/ Aviltado na dignidade.» Também o líder da banda, Adolfo Luxúria Canibal, saudou a realização a Festa do Avante!, até pelo facto de permitir a apresentação, interrompida pela pandemia, do disco lançado no final do ano passado.
À noite, depois de Capicua, Dino D’ Santiago disse uma frase brilhante: «Podemos desculpar uma criança por ter medo do escuro. Mas a maior tragédia da vida é um homem que tem medo do escuro.» A música electrónica de Dino (que convidou Marta Ren), que mistura influências e tradições africanas, lembrou a noite da véspera, dedicada à denúncia do racismo, uma segunda mensagem política enviada daquele palco.
O espectáculo Sons e vozes de África contra o racismo trouxe o desfile de Anastácia Carvalho (São Tomé e Príncipe), Costa Neto (Moçambique), Maria Alice (Cabo Verde) e Gerson Marta (Angola).
Maria Alice, uma princesa da voz, falou com o coração: «Estamos aqui para homenagear a nossa rainha: África!.» Gérson Marta falou com a razão: «Ser contra o racismo é ser pela equidade».
A mensagem contra o racismo foi complementada, durante os intervalos de todos os espectáculos (este ano um pouco maiores, para permitirem o trabalho adicional de higienização dos bastidores) com a passagem de um filme, sem comentários, que mostrou a violência sistémica do racismo. As imagens começavam no tráfico de escravos de África, o massacre dos índios na América, passavam pelo colonialismo, o nazismo, o genocídio de judeus e ciganos, a guerra colonial portuguesa, o apartheid na África do Sul e terminavam com a segregação e a violência policial contra os negros, nos Estados Unidos da América, desde os anos 50 do século passado até aos nossos dias.
A abertura de domingo trouxe a vocalista enérgica, as canções anti-racistas e anti-homofóbicas dos Albert Fish e mais um manifesto contra a política do medo: «Independentemente do que andam a dizer por aí, estamos aqui: Avante!»
O líder da histórica banda Peste & Sida fez mesmo uma intervenção relativamente longa a agradecer ao PCP, bem como a todos os que organizaram e trabalharam na Festa do Avante! e criticou duramente os noticiários televisivos pela falta de isenção ao tratamento dado ao debate político anterior ao evento.
Rogério Charraz agarrou logo o público com uma citação da Carvalhesa e um lote de canções militantes, originais, que demonstram que a música de protesto encontra sempre motivo de renovação, quer de conteúdo, quer formal.
A inteligência do DJ Stereossauro trouxe, depois do comício, uma música moderna e refinada capaz de ir buscar Carlos Paredes, José Afonso ou Amália Rodrigues para uma transformação complexa, evoluída e inovadora. Os convidados que foram passando pelo palco (Camané, Mariza Liz, Carlão, Chullage e Ricardo Gordo) fundiram-se nesse som arriscado e na mensagem contra o medo: Avante! e Firmeza, gritou Chullage.
O espectáculo de encerramento de sábado, do Blasted, com um som grandioso, várias dinâmicas musicais e um trabalho de luz sofisticado foi outra grande demonstração da modernidade da música portuguesa e outro momento de prova em como todos os artistas da Festa procuraram gerir as reações do público, de forma a manter o respeito escrupuloso pelas normas de segurança sanitárias, celebrando a alegria mas mantendo a prudência: «tomem conta uns dos outros», repetiam.
A encerrar a festa estiveram os Xutos & Pontapés, frente a uma plateia cheia, que cantou versos como estes: «Ser duro é ter sempre, sempre muita calma/ Duros são os tempos que correm/ É preciso dobrar a coragem/ Cair no forte/ Sentir a coragem/ Pura.»
E Tim, o vocalista, explicou-se: «Espero que tenha valido a pena terem vindo dar este apoio aos artistas. A todos vocês que constroem a Festa, e vão continuar a fazê-lo, o nosso agradecimento.»
Da organização que permitiu este grandioso manifesto contra o medo e decidiu convidar apenas artistas residentes em Portugal, certamente que a resposta simples e natural é óbvia: «Não têm que agradecer. É a nossa natureza».