A tese
Num recente espaço de comentário televisivo, João Soares sugeriu que, devido à assinatura do pacto de não agressão, em Agosto de 1939, a União Soviética partilha com a Alemanha nazi a responsabilidade pelo início da Segunda Guerra Mundial. Entre modestas declarações de que não é historiador e juras de não ser movido por quaisquer preconceitos anticomunistas, lá garantiu que «foi assim que [a guerra] começou». Esta afirmação, porém, tem logo à partida um problema: é falsa!
Talvez João Soares não saiba, mas a destruição do bolchevismo,na Alemanha e em todo o mundo, era o objectivo central do nazi-fascismo: Hitler descreveu-o no Mein Kampf como a sua razão de existir. Foi esse, aliás, o principal motivo pelo qual tantos industriais e banqueiros de várias nacionalidades o financiaram e os círculos dirigentes britânicos e franceses, esperançados por o ver marchar para Leste, assistiram passivamente ao seu rearmamento, lhe entregaram numa bandeja a Áustria e a Checoslováquia e se mantiveram passivos mesmo depois de declarada a guerra.
João Soares acusa a União Soviética de ter invadido a Polónia imediatamente a seguir à Alemanha, dividindo-a, mas desconhece (ou omite propositadamente) que os territórios em causa, sobretudo ucranianos e bielorrussos, lhe tinham sido roubados pelo imperialismo após a Revolução de Outubro. E provavelmente também não sabe a importância que tiveram os combates aí travados para suster o avanço inicial dos nazi-fascistas em território soviético e nunca terá ouvido falar do heroísmo dos defensores da Fortaleza de Brest, que cobraram bem caro cada palmo de terra pátria cedida ao inimigo, que ali se confrontou, pela primeira vez, com uma efectiva resistência.
Diz-se que o pacto de Agosto de 1939 foi negativo, mas oculta-se que permitiu à URSS ganhar quase dois anos para preparar a defesa – sua e, como se viu, de toda a Humanidade! E o que terão sido, então, os diversos tratados e acordos celebrados desde 1933 entre a Alemanha e a Grã-Bretanha, França, EUA e Polónia, com motivações nada recomendáveis?E como apelidar a reiterada recusa, por parte dos governos ocidentais, das mil-e-uma propostas soviéticas para conter o nazi-fascismo antes que fosse demasiado tarde?
Mas esta tese não é nova nem saiu das meninges de João Soares. Pelo contrário, há muito que enquadra a ofensiva que, comparando nazi-fascismo e comunismo, visa este último, constituindo a cobertura ideológica para todo o tipo de ataques à organização e actividade dos comunistas, ao mesmo tempo que forças fascistas levantam de novo a cabeça, impunemente. A barrar-lhes o caminho estarão sempre, na primeira linha, os comunistas. Diga-se por aí o que se disser!