O embaixador de Trump

Filipe Diniz

George Glass, o embaixador de Trump em Portugal, publicou uma prosa (“Público”, 30.07.2020). De certa forma comentá-la é chover no molhado, dado o descrédito que esta administração granjeou em toda a parte. Vê-los falar nos «indeléveis ideais democráticos que partilhamos» é estarrecedor.

Mas nada que dali venha, por caricatamente hipócrita que seja, pode ser ignorado. Quando é conhecida uma brutal quebra do PIB no nosso país e se aprofunda o cenário de uma situação social e económica dramática, o sr. Glass elogia o chorudo aumento da contribuição de Portugal para a NATO. Uma chuva de milhões para os negócios da guerra. Para o povo português acrescentará ao desastre, e o alinhamento do governo português fará parte dele.

Não quer a 5G chinesa em Portugal, para protecção da «segurança nacional» e das «informações pessoais dos cidadãos». Representa o país que tem montada uma colossal rede global de espionagem e devassa (incluindo dos seus próprios cidadãos), um país e um sistema que instrumentaliza criminosamente os avanços da ciência e da técnica, em que a tecnologia de Silicon Valley é hoje peça central no sistema de poder e de dominação.

Diz que «não são apenas as empresas tecnológicas que estão a vir para Portugal, empresas da área da saúde[…] estão a encontrar oportunidades na economia portuguesa». Quando – nomeadamente no seu país – a medicina privada exclui a grande massa da população e um serviço público de saúde demonstra ser determinante, o negócio da saúde EUA encontra cá «oportunidades».

Por duas vezes se descai acerca do reduzido «reconhecimento» dos «feitos da política externa do Governo Trump». Aí tem razão. E quanto mais cedo os povos de todo o mundo converterem esse fraco «reconhecimento» em direito a um destino livre e independente, melhor.




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