Migrantes fora cá dentro
Em Março, quando a COVID-19 fez ressurgir as fronteiras na União Europeia e da Europa com o resto do mundo, muitos não terão dado conta das campainhas de alarme que soaram em Bruxelas: e agora, quem faz as colheitas?
Pois é, a UE, que por estes dias se prepara para aprovar o chamado pacto de migração, que segundo o jornal El País visa fortalecer a vigilância nas fronteiras externas e agilizar a expulsão de migrantes irregulares, recorre anualmente a entre 800 mil a um milhão de trabalhadores para o trabalho agrícola, a maioria estrangeiros.
Frutas e legumes chegam à distribuição passando pelas mãos de marroquinos, eslovacos, romenos, polacos, senegaleses, paquistaneses, indianos, nepaleses, etc., etc., etc. Mão-de-obra barata, quando não mesmo escrava, seja qual for o azimute onde a leva a miséria, deu azo a negociações entre patronato e autoridades para que imigrantes pudessem trabalhar no campo, malgrado a pandemia, levando mesmo a fretes especiais de aviões para o respectivo transporte (caso da Lufthansa, para a Alemanha, ou entre a Roménia e Itália).
Satisfeita a sazonal necessidade, a Comissão Europeia avança com o plano para blindar a UE e expulsar de forma expedita migrantes mais recalcitrantes, esperando a benção da Polónia e da Hungria. O trunfo parece ser a Agência Europeia de Fronteiras (Frontex), que já conta com uma força policial própria (previstos 10 000 elementos), e abundantes meios terrestres, marítimos e aéreos, incluindo equipas de reacção rápida para acudir a emergências.
Das necessidades de todo o ano não se fala. Haverá sempre expedientes para garantir a circulação tranquila dos que só servem para ser explorados portas adentro da democrática União Europeia.