Os lobos uivam
“o que a pequena e média agricultura quer é o escoamento dos seus produtos a preços justos”
Às preocupações relativas à propagação da doença, que neste início de 2020 se abateu subitamente sobre o planeta, e ao aproveitamento que dela faz o capital, promovendo um assalto selvagem a direitos e rendimentos, soma-se a vasta operação ideológica que visa pôr as massas a aceitar como inevitáveis limitações a direitos e liberdades e impor como bons e incontornáveis, à força da mobilização de colossais meios de propaganda, objectivos que o grande capital sempre almejou.
Entre estes está o velho objectivo de assegurar a concentração da propriedade e da produção agrícola.
Montados nas dificuldades que se avizinham na distribuição alimentar, os grandes agrários, em articulação com a grande distribuição, logo desenharam uma narrativa que visava dar a ideia de que uns e outros estariam preocupados com a alimentação dos portugueses e com a produção nacional.
Uns e outros. Os mesmos que ao longo de anos estiveram no centro das decisões da Política Agrícola Comum e das opções de política agrícola nacional, que empurraram para a falência, para a ruína e para o abandono milhares de pequenos agricultores, os mesmos que, através das suas ligações ao poder político, condicionaram as decisões dessa mesma PAC para ficarem com a parte de leão dos apoios, os mesmos que esmagaram brutalmente os preços à produção enquanto importavam milhares de toneladas de alimentos, enfim, os lobos que andam à espreita, para abocanhar o que puderem, querem hoje disfarçar-se com a pele de cordeiro.
Nessa sua estratégia, encontram aliados de ocasião entre os amigos de sempre.
Governo e Presidente da República – que não encontram espaço para se aproximar da agricultura familiar, para conhecer os problemas e as realidades de centenas de milhares de pequenos e médios agricultores – andam de braço dado com o grande agro-negócio, ao mesmo tempo que patrocinaram o encerramento de mercados locais onde aqueles escoavam os seus produtos.
Não há propaganda de última hora a enaltecer o orgulho pátrio ou juras de amor eterno à produção nacional que apaguem anos de prateleiras cheias, nas cadeias de distribuição, de maçãs italianas, batatas francesas, peras do Chile ou alhos da China.
Não há descontos de última hora nos queijos nacionais (que seguramente vão imputar aos produtores), que façam esquecer as toneladas de queijo do centro da Europa, vendido aqui abaixo do preço de produção.
Não há visitas institucionais que possam iludir o facto de, do conjunto de medidas anunciadas para a agricultura, nenhuma se dirigir ao pequenos e médios agricultores.
É certo que, nos muitos anúncios, pouco mais há que medidas administrativas e que não significam dinheiro novo ou mais dinheiro para o sector. Mas mesmo essas são dirigidas, no essencial ao grande agro-negócio.
Estamos perante uma crise de dimensões ainda não completamente conhecidas.
Para além de tratar da prevenção, de evitar a propagação do vírus e de cuidar dos doentes, é necessário garantir a alimentação do nosso povo.
Ora sabemos que Portugal, em consequência da cedência aos interesses do grande capital agrário e comercial, está muito dependente do estrangeiro, o que se agravará se não dermos confiança aos pequenos e médios agricultores para produzirem.
Neste momento, sectores muito diversos estão a braços com dificuldades de escoamento, seja por encerramento intempestivo da restauração e de mercados, seja pela quebra de encomendas por parte da grande distribuição que agora diz querer salvar a produção nacional.
Ao contrário do grande agro-negócio, que uiva à procura de novas linhas de apoio público e de absolvição para os males que tem feito, o que a pequena e média agricultura quer é o escoamento dos seus produtos a preços justos. Querem apenas ter condições para continuar a produzir.