O modelo

Anabela Fino

«O valor da vida e da sustentabilidade do nosso modelo de sociedade não é incompatível com a suspensão de alguns direitos dos cidadãos por um curto período de tempo». A frase, com sublinhado nosso, preocupante pelo que não diz mas claramente admite, consta da carta, divulgada esta segunda-feira, dirigida por centena e meia de pessoas ao Presidente da República, presidente da Assembleia da República e primeiro-ministro, a propósito da alegada necessidade de ter «coragem para agir» no sentido da retoma da actividade económica.

Entre anónimos e figuras públicas, desde o reanimado secretário-geral da UGT ao patrão da CIP passando pelo presidente da Altice, os subscritores consideram não ser possível suspender a actividade económica até que não exista risco de contágio. O «nosso modelo de sociedade» não suportaria uma espera tão prolongada, garantem.

Dito assim, até parece que o «nosso modelo de sociedade» é um bem para se guardar e pelo qual vale a pena arriscar a vida. Ora, tanto quanto vimos da última vez, em Portugal os 10% mais ricos têm rendimentos quase nove (!) vezes superiores aos dos 10% mais pobres. No ano passado, Portugal ocupava o sexto lugar do topo da lista dos estados-membros da UE com maiores desigualdades nos rendimentos, atrás da Bulgária, Roménia, Letónia, Espanha e Grécia. Mais, no País permanecem em situação de pobreza mais de 1,7 milhões de pessoas, sendo uma parte significativa destes crianças e jovens.

Alargando o horizonte, o «modelo de sociedade» a preservar arriscando a vida... dos outros, é o que permite, segundo dados de 2019, que 2153 bilionários possuam mais riqueza do que 4,6 mil milhões de pessoas, ou seja 60% da população mundial.

É bom saber que é disto que falam os que fingem falar por nós.




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