Aos que virão a nascer

Gustavo Carneiro

O dra­ma­turgo e poeta alemão Ber­tolt Brecht es­creveu nas pri­meiras dé­cadas do sé­culo XX um poema in­ti­tu­lado Aos que virão a nascer,no qual se di­rigia aos que, um dia, vi­ve­riam (vi­verão!!) numa so­ci­e­dade em que o homem possa ajudar o homem. Con­tando-lhes os tempos som­brios de guerra, opressão e mi­séria, mas também de co­ra­josa re­sis­tência, em que lhe coube viver, pedia: «Pensai em nós com in­dul­gência.»

Hoje, quando re­vi­si­tamos a His­tória, fas­ci­namo-nos com as grandes epo­peias, as glo­ri­osas re­vo­lu­ções, os im­pe­tu­osos saltos ci­vi­li­za­ci­o­nais, as in­ven­ções do génio hu­mano ou as mais belas cri­a­ções ar­tís­ticas; por outro lado, hor­ro­ri­zamo-nos com a peste, a in­qui­sição, a es­cra­va­tura, a bomba nu­clear. E o que pen­sarão essas ge­ra­ções fu­turas ao olharem para o nosso tempo? Com que se in­dig­narão? O que os emo­ci­o­nará?

Será na­tural para elas que, numa al­tura de ameaça sa­ni­tária mun­dial, grandes po­tên­cias e or­ga­ni­za­ções fi­nan­ceiras in­ter­na­ci­o­nais ti­vessem in­sis­tido na ma­nu­tenção e até mesmo no re­forço de san­ções contra países mais frá­geis? Con­se­guirão com­pre­ender como foi pos­sível que, nessas mesmas po­tên­cias eco­nó­micas e mi­li­tares, mi­lhares ti­vessem mor­rido por in­ca­pa­ci­dade – ou ine­xis­tência – dos ser­viços pú­blicos de saúde?

Acharão normal que numa si­tu­ação tão sen­sível a ge­ne­ra­li­dade dos es­tados ca­pi­ta­listas tenha per­mi­tido o au­mento de­sen­freado da ex­plo­ração e dos des­pe­di­mentos? E que mi­lhões de tra­ba­lha­dores te­nham fi­cado to­tal­mente des­pro­te­gidos? Que muitos não ti­vessem outra opção senão ar­riscar a sua saúde e tra­ba­lhar sem as mí­nimas con­di­ções para terem o que comer? Sen­tirão um nó na gar­ganta pelos mi­lhares de re­fu­gi­ados, ví­timas das guerras do im­pe­ri­a­lismo, cada vez mais en­tre­gues a si pró­prios?

Acre­di­tarão numa única pa­lavra de louvor à su­pe­ri­o­ri­dade do mundo de­mo­crá­tico oci­dental, o tal que foi in­capaz da mí­nima ex­pressão de so­li­da­ri­e­dade e en­tre­a­juda? Darão o mí­nimo cré­dito à União Eu­ro­peia, tão rá­pida e ge­ne­rosa a acorrer aos mo­no­pó­lios e to­tal­mente inerte para de­fender a saúde e os di­reitos das po­pu­la­ções?

Nesse fu­turo, não serão se­gu­ra­mente raras as ati­tudes hoje as­su­midas pela China, por Cuba ou pela Rússia, que ali­aram ao so­corro aos seus pró­prios povos a ajuda a ou­tros países em di­fi­cul­dades, en­vi­ando mé­dicos, me­di­ca­mentos e equi­pa­mento. E nem assim se li­vrando de de­mo­crá­ticas san­ções, blo­queios e cercos mi­li­tares.

Os que virão a nascer terão sobre nós uma van­tagem, a de já sa­berem o des­fecho destes com­plexos tempos em que nos coube viver. Quanto a nós, temos o pri­vi­légio e a res­pon­sa­bi­li­dade de sermos cons­tru­tores e pro­ta­go­nistas da­quilo que para eles será His­tória. Que pensem também em nós com in­dul­gência…



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