Aos que virão a nascer
O dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht escreveu nas primeiras décadas do século XX um poema intitulado Aos que virão a nascer,no qual se dirigia aos que, um dia, viveriam (viverão!!) numa sociedade em que o homem possa ajudar o homem. Contando-lhes os tempos sombrios de guerra, opressão e miséria, mas também de corajosa resistência, em que lhe coube viver, pedia: «Pensai em nós com indulgência.»
Hoje, quando revisitamos a História, fascinamo-nos com as grandes epopeias, as gloriosas revoluções, os impetuosos saltos civilizacionais, as invenções do génio humano ou as mais belas criações artísticas; por outro lado, horrorizamo-nos com a peste, a inquisição, a escravatura, a bomba nuclear. E o que pensarão essas gerações futuras ao olharem para o nosso tempo? Com que se indignarão? O que os emocionará?
Será natural para elas que, numa altura de ameaça sanitária mundial, grandes potências e organizações financeiras internacionais tivessem insistido na manutenção e até mesmo no reforço de sanções contra países mais frágeis? Conseguirão compreender como foi possível que, nessas mesmas potências económicas e militares, milhares tivessem morrido por incapacidade – ou inexistência – dos serviços públicos de saúde?
Acharão normal que numa situação tão sensível a generalidade dos estados capitalistas tenha permitido o aumento desenfreado da exploração e dos despedimentos? E que milhões de trabalhadores tenham ficado totalmente desprotegidos? Que muitos não tivessem outra opção senão arriscar a sua saúde e trabalhar sem as mínimas condições para terem o que comer? Sentirão um nó na garganta pelos milhares de refugiados, vítimas das guerras do imperialismo, cada vez mais entregues a si próprios?
Acreditarão numa única palavra de louvor à superioridade do mundo democrático ocidental, o tal que foi incapaz da mínima expressão de solidariedade e entreajuda? Darão o mínimo crédito à União Europeia, tão rápida e generosa a acorrer aos monopólios e totalmente inerte para defender a saúde e os direitos das populações?
Nesse futuro, não serão seguramente raras as atitudes hoje assumidas pela China, por Cuba ou pela Rússia, que aliaram ao socorro aos seus próprios povos a ajuda a outros países em dificuldades, enviando médicos, medicamentos e equipamento. E nem assim se livrando de democráticas sanções, bloqueios e cercos militares.
Os que virão a nascer terão sobre nós uma vantagem, a de já saberem o desfecho destes complexos tempos em que nos coube viver. Quanto a nós, temos o privilégio e a responsabilidade de sermos construtores e protagonistas daquilo que para eles será História. Que pensem também em nós com indulgência…