Há décadas em que nada acontece e semanas em que décadas acontecem
Em Dezembro ninguém conhecia a COVID-19. Já o mesmo não se pode dizer da possibilidade de surgimento de uma nova pandemia e da necessidade de tomar medidas preventivas no plano mundial. Os alertas da comunidade científica, repetidos durante décadas, encarregaram-se disso. Como alguém disse, há décadas em que nada acontece e semanas em que décadas acontecem.
O combate ao surto e suas consequências rejeita lógicas individualistas
Entretanto, o surto epidémico e suas graves consequências no plano social e económico tornaram-se omnipresentes. Quando o pior passar, os povos do mundo inteiro terão de colocar questões difíceis de responder. Desde logo, por que foram apanhados desprevenidos e a que se deveu a notória falta de solidariedade e cooperação internacional, que agravou em muito a situação – com algumas notáveis excepções, entre as quais assumem particular relevo o caso da China e de Cuba.
A incapacidade do sistema capitalista em dar resposta adequada a uma crise sanitária global é evidente. Mais uma vez, o imperativo da maximização do lucro – mesmo que a custo do bem-estar da humanidade – revela todas as suas tendências destrutivas.
Agora, como no passado, os intentos do grande capital passam por esconder as causas na origem da crise estrutural do capitalismo, intensificar o ataque a direitos e rendimentos dos trabalhadores e aplicar medidas de natureza securitária e de limitação de liberdades.
Todos juntos?
É, pois, urgente dar forte combate político, ideológico e social a esta estratégia, o que implica, desde logo, descartar a ideia de que «estamos todos juntos nesta situação».
Não podemos dizer que o surto epidémico é um problema que afecta todos os países de igual forma, quando as consequências do desinvestimento no SNS – graças a décadas de política de direita no nosso País – se manifestam agora na falta de recursos para responder não só a este problema, mas a todas as outras necessidades de prestação de cuidados médicos. Quando a destruição do tecido produtivo nacional, aliado ao défice agro-alimentar e tecnológico, resulta na falta de capacidade para produzir bens essenciais ao combate à COVID-19 e nos correspondentes preços especulativos que se fazem sentir nas farmácias e supermercados.
Não podemos falar em unidade nacional para garantir rendimentos às pessoas e apoios às MPME quando alguns pretendem canalizar a parte de leão desses apoios para os grandes grupos económicos e financeiros, à custa do dinheiro dos trabalhadores amealhado na Segurança Social ou de futuras políticas de «austeridade».
Não podemos estar todos unidos em oposição ao vírus quando alguns o utilizam como pretexto para tentar impor a «lei da selva» nas relações laborais.
Acção colectiva!
Este surto epidémico comprova que todas as soluções necessárias para lidar com o problema rejeitam o contexto individualista, baseado na lógica do mercado, que a ideologia capitalista tem propagandeado. Exige-se acção colectiva, na forma de luta por medidas efectivas de combate à COVID-19 e de defesa dos direitos dos trabalhadores.
Como frequentemente acontece, nos momentos de maior dificuldade as massas recorrem ao PCP e ao movimento sindical unitário. O desenvolvimento desta luta, tendo em conta os condicionalismos actuais, exigirá por isso do Partido grandes níveis de organização, disciplina e mobilização.
Os homens e as mulheres progressistas deste País são, neste momento, um importante recurso para informar a sociedade, para esclarecer os factos empíricos da situação e a realidade política e económica que determina a estratégia do capitalismo que urge derrotar.