Prioridades
É nas alturas críticas que melhor se percebe o que verdadeiramente move determinados interesses. A este respeito, a pandemia do novo coronavírus tem sido bastante reveladora, um pouco por todo o mundo e também em Portugal.
Por cá, os grupos de saúde privados começaram por se colocar à margem do combate ao Covid19, eles que ao longo dos anos ganharam milhões à custa das transferências de verbas públicas e de Parcerias Público-Privadas. Sectores do patronato logo viram nesta crise uma oportunidade para despedir e precarizar ainda mais os vínculos laborais e reclamam do Governo enquadramento legal para algumas destas práticas.
À direita, houve quem tenha «alertado» para a impossibilidade de fazer face ao coronavírus no quadro constitucional, propondo de imediato a revisão da Lei Fundamental do País, procurando aproveitar-se deste grave problema de saúde pública para cumprir aquele que é um seu sonho antigo: desferir mais um golpe na Constituição da República.
Nos EUA, onde o sistema de saúde assente em hospitais privados e seguradoras exclui milhões do diagnóstico e tratamento do Covid19 (como de tantas outras doenças), a administração Trump esforça-se para conseguir o exclusivo de uma possível vacina que estará a ser desenvolvida na Alemanha. Fecha o tráfego aéreo com quase toda a Europa, mas envia milhares de militares norte-americanos para o continente europeu com o fim de participarem nos exercícios da NATO Defender Europe 2020.
Será também interessante acompanhar a evolução desta que já é a maior crise bolsista das últimas décadas. Veremos que novas concentrações e fusões, falências e encerramentos, se farão neste tempo de saldos…
Na mesma União Europeia que, durante anos, impôs cortes sobre cortes nos sistemas públicos de Saúde e favoreceu privatizações e liberalizações, o que sobrou de declarações públicas faltou em actos concretos. Já no final de Fevereiro, a Itália solicitara a activação do Mecanismo de Protecção Civil da UE para fornecimento de equipamento médico e de protecção individual e nenhum dos estados-membros respondeu ao apelo.
Entretanto, a República Popular da China partilhou com a comunidade científica internacional todos os conhecimentos que adquiriu sobre o novo vírus e, numa emocionante expressão de internacionalismo, enviou já para Itália equipas de especialistas, ventiladores e milhões de máscaras e ofereceu apoio aos países que dele necessitem. Cuba, por seu lado, não só produz um dos medicamentos antivirais que se revelou mais eficaz no combate ao coronavírus como também coloca os seus médicos e profissionais de Saúde à disposição de quem precise.
É, de facto, em momentos como este que melhor se percebe o que move cada um. Perceberam?