OS ilusionismos do capitalismo…
O capital monopolista procura aproveitar a situação criada pelo Covid-19
As notícias sucedem-se a um ritmo vertiginoso.
A Administração norte-americana menospreza a tomada das necessárias medidas de saúde pública no seu país; sem pudor, profere comentários xenófobos e regozija-se com os impactos do surto epidémico na China, considerando-os positivos para a economia dos EUA; procura apropriar-se e assegurar o uso exclusivo de uma futura vacina que está a ser desenvolvida pelos seus próprios aliados…
Na União Europeia constata-se também o salve-se quem puder da selva neoliberal. A Áustria critica a Alemanha e a França por não permitirem a aquisição de material e equipamento médico – a bem dizer, isto da livre circulação de bens e mercadorias, afinal, é só quando lhes apraz…; enquanto a Itália, a braços com uma situação dramática, recebe dezenas de toneladas de material e equipamento médico, assim como uma equipa de peritos médicos, enviados, com carácter de urgência, pela China…
Na multiplicidade e complexidade das questões sociais, económicas, políticas e ideológicas suscitadas pelo surto epidémico do coronavírus, emerge acima de tudo a forma brutal como este vem expor a natureza inumana do capitalismo.
O surto do Covid-19 surge num momento em que se avolumavam há muito riscos de recessão nas principais potências capitalistas e sinais de deterioração da situação económica ao nível mundial.
A colossal injecção de biliões de dólares no sistema financeiro e a intensificação da exploração e do ataque a direitos sociais, entre outras medidas com que o capital financeiro respondeu à explosão de crise de 2007/8, levou ao incremento exponencial da acumulação e da concentração capitalista, à violenta acentuação das desigualdades sociais, a níveis recorde de endividamento, e a uma nova espiral de especulação bolsista – evidenciando, tanto o carácter de classe das políticas neoliberais, como os seus limites.
Uma situação agravada com a política de chantagem e guerra económica impulsionada pelos EUA – particularmente contra a China e a Rússia, entre outros países –, com que tentam contrariar a tendência do seu declínio económico relativo e impor o seu domínio hegemónico no plano mundial.
O impacto económico do actual surto epidémico está a ter um efeito catalisador, acelerando o risco de um novo período de recessão nas principais potências capitalistas, com efeitos ao nível da economia mundial. O recente crash bolsista assim prenuncia, tendo os EUA e a UE anunciado de imediato uma nova inundação de milhares de milhões no sistema financeiro e acrescidas benesses ao grande capital. No entanto, mesmo de dentro do sistema, surgem alertas de que não basta mais do mesmo para travar a vertigem para o abismo.
Fiel à sua natureza, o capital monopolista procura aproveitar a situação, não só para iludir as suas responsabilidades pelos profundos problemas que marcam a actualidade mundial, como para contrariar avanços na resposta a reivindicações e anseios dos trabalhadores e incrementar ataques aos seus direitos; ao mesmo tempo que procura banalizar o desrespeito por liberdades, direitos e garantias fundamentais – pela democracia.
Não nos deixemos iludir, a luta de classes não está suspensa, prossegue em todas as suas expressões.