OS ilusionismos do capitalismo…

Pedro Guerreiro

O ca­pital mo­no­po­lista pro­cura apro­veitar a si­tu­ação criada pelo Covid-19

As no­tí­cias su­cedem-se a um ritmo ver­ti­gi­noso.

A Ad­mi­nis­tração norte-ame­ri­cana me­nos­preza a to­mada das ne­ces­sá­rias me­didas de saúde pú­blica no seu país; sem pudor, pro­fere co­men­tá­rios xe­nó­fobos e re­go­zija-se com os im­pactos do surto epi­dé­mico na China, con­si­de­rando-os po­si­tivos para a eco­nomia dos EUA; pro­cura apro­priar-se e as­se­gurar o uso ex­clu­sivo de uma fu­tura va­cina que está a ser de­sen­vol­vida pelos seus pró­prios ali­ados…

Na União Eu­ro­peia cons­tata-se também o salve-se quem puder da selva ne­o­li­beral. A Áus­tria cri­tica a Ale­manha e a França por não per­mi­tirem a aqui­sição de ma­te­rial e equi­pa­mento mé­dico – a bem dizer, isto da livre cir­cu­lação de bens e mer­ca­do­rias, afinal, é só quando lhes apraz…; en­quanto a Itália, a braços com uma si­tu­ação dra­má­tica, re­cebe de­zenas de to­ne­ladas de ma­te­rial e equi­pa­mento mé­dico, assim como uma equipa de pe­ritos mé­dicos, en­vi­ados, com ca­rácter de ur­gência, pela China…

Na mul­ti­pli­ci­dade e com­ple­xi­dade das ques­tões so­ciais, eco­nó­micas, po­lí­ticas e ide­o­ló­gicas sus­ci­tadas pelo surto epi­dé­mico do co­ro­na­vírus, emerge acima de tudo a forma brutal como este vem expor a na­tu­reza inu­mana do ca­pi­ta­lismo.

O surto do Covid-19 surge num mo­mento em que se avo­lu­mavam há muito riscos de re­cessão nas prin­ci­pais po­tên­cias ca­pi­ta­listas e si­nais de de­te­ri­o­ração da si­tu­ação eco­nó­mica ao nível mun­dial.

A co­lossal in­jecção de bi­liões de dó­lares no sis­tema fi­nan­ceiro e a in­ten­si­fi­cação da ex­plo­ração e do ataque a di­reitos so­ciais, entre ou­tras me­didas com que o ca­pital fi­nan­ceiro res­pondeu à ex­plosão de crise de 2007/​8, levou ao in­cre­mento ex­po­nen­cial da acu­mu­lação e da con­cen­tração ca­pi­ta­lista, à vi­o­lenta acen­tu­ação das de­si­gual­dades so­ciais, a ní­veis re­corde de en­di­vi­da­mento, e a uma nova es­piral de es­pe­cu­lação bol­sista – evi­den­ci­ando, tanto o ca­rácter de classe das po­lí­ticas ne­o­li­be­rais, como os seus li­mites.

Uma si­tu­ação agra­vada com a po­lí­tica de chan­tagem e guerra eco­nó­mica im­pul­si­o­nada pelos EUA – par­ti­cu­lar­mente contra a China e a Rússia, entre ou­tros países –, com que tentam con­tra­riar a ten­dência do seu de­clínio eco­nó­mico re­la­tivo e impor o seu do­mínio he­ge­mó­nico no plano mun­dial.

O im­pacto eco­nó­mico do ac­tual surto epi­dé­mico está a ter um efeito ca­ta­li­sador, ace­le­rando o risco de um novo pe­ríodo de re­cessão nas prin­ci­pais po­tên­cias ca­pi­ta­listas, com efeitos ao nível da eco­nomia mun­dial. O re­cente crash bol­sista assim pre­nuncia, tendo os EUA e a UE anun­ciado de ime­diato uma nova inun­dação de mi­lhares de mi­lhões no sis­tema fi­nan­ceiro e acres­cidas be­nesses ao grande ca­pital. No en­tanto, mesmo de dentro do sis­tema, surgem alertas de que não basta mais do mesmo para travar a ver­tigem para o abismo.

Fiel à sua na­tu­reza, o ca­pital mo­no­po­lista pro­cura apro­veitar a si­tu­ação, não só para iludir as suas res­pon­sa­bi­li­dades pelos pro­fundos pro­blemas que marcam a ac­tu­a­li­dade mun­dial, como para con­tra­riar avanços na res­posta a rei­vin­di­ca­ções e an­seios dos tra­ba­lha­dores e in­cre­mentar ata­ques aos seus di­reitos; ao mesmo tempo que pro­cura ba­na­lizar o des­res­peito por li­ber­dades, di­reitos e ga­ran­tias fun­da­men­tais – pela de­mo­cracia.

Não nos dei­xemos iludir, a luta de classes não está sus­pensa, pros­segue em todas as suas ex­pres­sões.




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