Os nossos 100

Gustavo Carneiro

Cem anos é muito tempo. Para uma pessoa, é bem mais do que se espera que viva e não serão particularmente numerosas, no País, as instituições tão longevas. Na História, é um período suficientemente longo para registar impetuosos avanços e dramáticos recuos, períodos de convulsão e outros de acalmia, brutais guerras e frutuosos tempos de paz: a última centúria, no mundo como em Portugal, prova-o como poucas anteriores.

Ora, é precisamente o seu centenário que o PCP começa a comemorar amanhã, no comício em Lisboa. E só poderia ser ele a celebrar tão expressivo aniversário, pois tal feito não está (como de facto não esteve) ao alcance de mais nenhuma força política…

É que comemorar cem anos significa que se nasceu na agonia da Primeira República e se atravessou toda a longa ditadura fascista (a mais duradoura da Europa) e os mais de 45 anos que já leva a nossa democracia, o que só por si já seria notável. Mas dizer isto é dizer pouco, pois os comunistas nunca se limitaram a contemplar o espectáculo do mundo, antes foram dele destacados protagonistas.

Comemorar cem anos significou que o PCP não aceitou a proibição imposta pelo fascismo, que os restantes partidos obedientemente acataram, e que optou pela resistência nas condições mais adversas. E que resistiu quando outros claudicaram e lutou corajosamente quando os demais cederam, pagando um elevado preço por tal ousadia: foram comunistas a grande maioria dos presos políticos, os que cumpriram as mais longas penas e enfrentaram as mais duras privações, a maior parte dos mártires; era o Partido, a sua organização, os seus quadros e militantes os alvos privilegiados da repressão.

Para o PCP, comemorar cem anos significa igualmente que interveio nas mais diversas condições – da rigorosa clandestinidade à exaltante revolução, da acção de massas à intervenção institucional – e respondeu às mil-e-uma mudanças na situação social e política com os necessários acertos tácticos e redifinições estratégicas, consumadas sempre por decisão autónoma e com firmes princípios. Caso contrário, não tinha aqui chegado.

Ao longo destes quase cem anos, o Partido conheceu êxitos e insucessos, alcançou vitórias e sofreu revezes. Por mais de uma vez teve de recomeçar do zero (ou quase) e nenhum obstáculo foi forte o bastante para o impedir. As múltiplas exéquias fúnebres que lhe prepararam soçobraram uma após outra.

Se algo fica claro neste período de quase um século é que o PCP não se deixa condicionar por pressões ou chantagens nem vai atrás de cantos da sereia ou modas (pseudo) ideológicas. Há por isso quem, à direita ou à esquerda, não lhe perdoe e insista na necessidade da sua transmutação. O que espanta é que ainda tentem. Cem anos é tempo mais do que suficiente para perceberem que não vale a pena!

 



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