Sucedâneos

Vasco Cardoso

Há quem se empenhe em transformar a patrocinada emergência de forças políticas reaccionárias numa coisa estranha ao percurso e objectivos estratégicos da política de direita e dos partidos que mais lhe dão expressão. Como se uns e outros não tivessem a mesma natureza de classe e não servissem os mesmos interesses do grande capital.

Nuns casos à bruta, noutros com indispensáveis punhos de renda, identifica-se uma matriz comum do discurso de PSD, CDS, Chega e Iniciativa Liberal. O mesmo ódio de classe aos direitos dos trabalhadores e às suas organizações e lutas, a mesma determinação na sistemática desvalorização dos serviços públicos e a sua substituição por negócios privados, a mesma reverência ao «deus mercado» e ao que dele emana, o mesmo sentido de ajuste de contas com a Revolução de Abril e particularmente com uma Constituição da República que contraria os propósitos desta gente. Como não reparar na coincidência da agenda saída do recente Congresso do PSD com o «estou-me nas tintas para a Constituição» com que André Ventura anunciou a sua candidatura à «Previdência» da República?

É a sua natureza de classe e os interesses que servem que estão na base da indisfarçável promoção que lhes tem sido dada pelos diferentes órgãos de comunicação social. Os mesmos que escolhem os ex-governantes – do PSD e CDS – Marques Mendes, Paulo Portas ou Ferreira Leite como comentadores políticos, são os que transformaram AV numa «estrela» da CMTV, cuja grelha editorial se encaixa na agenda do cavalheiro e vice-versa.

Há uma aposta clara na promoção desta gente. A generalização do discurso reaccionário – populista ou não – vai tomando conta do quadro político, convencidos que estão de que isso tornará mais próximo os seus obectivos.

A afirmação da estratégia reaccionária e anti-democrática passa por apresentar os seus protagonistas como sendo uma coisa nova, fora do sistema e dos partidos ditos tradicionais, mesmo que escondam, como no caso de AV, o seu percurso como delfim de Passos Coelho e último candidato do PSD à Câmara de Loures. Mas são sucedâneos. São rebentos de uma mesma raiz dessa erva daninha que combatemos há anos!

 



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