Os pássaros
Nunca fizemos dos impactos ambientais a única variável a estar presente na decisão sobre a construção do Novo Aeroporto de Lisboa. Aliás, não existem aeroportos sem impactos. Mas o facto de não ser esse o único foco da questão, tal não significa que se desvalorizem os riscos que têm vindo a ser divulgados, seja para o meio ambiente, seja para as populações, face à opção do Governo em avançar para a Base Aérea do Montijo como pista complementar à Portela. Impactos sobre os ecossistemas no estuário do Tejo, mas também impactos junto das populações dos concelhos envolventes à nova pista, bem como, ainda das populações de Lisboa a quem se propõe a sujeição a um intenso tráfego aéreo sobre as suas cabeças por mais umas décadas, a que se acrescentam problemas de segurança que têm sido sistematicamente desvalorizados até ao dia...
Na ânsia de justificar a sua submissão aos interesses da multinacional Vincy, o Governo desdobra-se em declarações como aquela que ouvimos por parte do secretário de Estado Estado Adjunto e das Comunicações, Alberto Souto de Miranda, desvalorizando os riscos existentes no Montijo e defendendo que os “pássaros não são estúpidos” e que acabarão por se adaptar ao movimento dos aviões.
Pois bem, já que o Governo não desvaloriza a sensatez da avifauna, também não deveria subestimar a inteligência das populações. Há medida que este processo vai avançando, com o acumular de legítimas dúvidas e de originais justificações, mais claro vai ficando o monumental frete que o Governo está a fazer à Vincy e aos interesses do grande capital (também este profundamente empenhado nesta solução como se pode verificar por via das declarações das confederações patronais). Relembramos: o País arrisca-se a ficar durante 50 anos sem as receitas aeroportuárias e sem um novo aeroporto. Sim, um novo aeroporto, construído de forma faseada no Campo de Tiro de Alcochete, libertando progressivamente a Portela e encontrando uma solução para o século XXI. É que os trabalhadores e o Povo português também não são estúpidos.