Fascização e militarismo

Luís Carapinha

A crise de há uma década deixou expostas profundas feridas no tecido social nos EUA

O desfecho previsível do processo de impeachment nos EUA fortalece as posições de Trump a nove meses das eleições presidenciais. A aclamação do «America first» no discurso-espectáculo sobre o estado da União, no início do mês, levou mais longe o recurso à demagogia e mentira, passível de sinistros paralelos históricos. Jactante, Trump reclamou os louros do estado «melhor do que nunca» da economia (o que é falso pois, segundo o FMI, a variação do PIB dos EUA recuou de 2.9% em 2018 para 2.3% no último ano) e do recorde de gastos militares de $2.2 biliões. O inflamado discurso populista emprega o verniz da defesa dos trabalhadores e da melhoria da condição dos sectores mais desfavorecidos para exaltar a linha política da actual Administração que tem como essência exactamente o oposto: o corte milionário de impostos a favor dos mais ricos, a privatização total da saúde e o ataque à escola pública, a escalada anti-sindical e contra os direitos da mulher, o racismo e a ampliação da sanha persecutória contra os imigrantes, o obscurantismo e reforço silencioso do regime reaccionário, a nova corrida aos armamentos, a imposição da lei da selva e a espiral desestabilizadora no plano internacional.

No quadro geral de ‘angústia estratégica’ que assola o imperialismo, como ainda agora se acabou de ver no teor da conferência anual de Munique, a crescente ameaça fascizante na principal potência imperialista não se compadece com a visão utilitária fulanizada em Trump ou na efabulação da democracia nos EUA. Lembre-se os anos do Macarthismo, após 1945, e o incremento do terrorismo de Estado, transversal a sucessivas Administrações nas últimas décadas. O aproveitamento de Bush e dos neocons do 11 de Setembro, o Patriot Act e o caldo em que se dá a emergência do Tea Party e a consolidação dos sectores mais retrógrados no seio dos republicanos. As raízes da ditadura residem no sistema de obscena concentração da riqueza, em que os 0.1% do topo da pirâmide detêm hoje tanto como a soma dos 90% [da população] desde a base. É este o sistema de poder do grande capital que Trump encarna, após décadas a fio de estagnação salarial e empobrecimento das classes trabalhadoras.

A crise capitalista de há uma década deixou expostas as profundas feridas no tecido social e potenciou as divisões e o clima de guerrilha institucional. Cresceu o sentimento popular das profundas desigualdades e da concentração do poder na alta finança. O importante aumento da popularidade do socialismo, em particular, nas gerações mais jovens colocou de sobreaviso a classe dirigente, ainda que esta represente um estádio difuso de consciência social e não signifique a adesão a uma orientação e programa claros de luta revolucionária.

Figuras como Sanders que se proclamam socialistas situam-se ideologicamente na social-democracia. Mas, sintomaticamente, a direcção e os grandes financiadores dos Democratas temem mais as pressões de esquerda no interior do partido do que a ameaça de Trump. Daí a reincidência na chapelada nas primárias, a aposta no ‘centrismo’ e na candidatura pára-quedas do magnata Bloomberg que Trump já admitiu preferir como rival eleitoral. Apesar do mediático rasgar de discurso de Pelosi, primordial é garantir o equilíbrio e continuidade fundamentais do sistema, o que não passa por um corte com o pântano de Washington e a inversão das políticas da guerra e exploração.




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