Inferno
Observando a generalidade da comunicação social e as declarações de diversos responsáveis políticos (em Portugal e não só) fica-se com a sensação de que o imperialismo não tem qualquer responsabilidade no caos instalado no Médio Oriente. A História, porém, desmente esta tese e para o comprovar nem é preciso recuar ao legado colonial, que deixou caminho aberto para a perpetuação do domínio das potências ocidentais.
Basta lembrar, por exemplo, que em 1953 os EUA (e é a própria CIA a admiti-lo) promoveram um golpe de Estado no Irão que derrubou o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, que nacionalizara os recursos petrolíferos do país. No poder foi colocado o Xá Reza Pahlevi, deposto mais tarde pela revolução popular de 1979, que desembocou na República Islâmica. O que aconteceria se o golpe não se tivesse concretizado? Não sabemos! Já o que sucedeu depois, é conhecido.
Ali ao lado, no Iraque, o mínimo que se poderá dizer é que a ascensão de Saddam Hussein agradou aos EUA, pois inverteu a política do seu antecessor, Ahmed Hassan Al-Bakr, que reconhecera o Partido Comunista, assumira o controlo sobre o petróleo e distanciara-se, em política externa, dos interesses norte-americanos. Foi já como peão dos EUA (e armado, financiado e sustentado por estes) que Saddam Hussein combateu o Irão na década de 80 e, sob o seu olhar passivo e cúmplice, exterminou comunidades curdas. As desavenças posteriores tiveram a ver com petróleo e domínio geo-estratégico e não com segurança, liberdade ou direitos humanos…
Se os pretextos invocados para agredir o Iraque foram comprovadamente falsos – nem as armas de destruição massiva existiam nem o Iraque tinha qualquer ligação com a Al-Qaeda (que, há que ter presente, foi criada pelos EUA no Afeganistão) – as suas consequências foram, no essencial, mantidas longe dos holofotes mediáticos.
Logo em 1995, a revista científica britânica The Lancet garantia que as sanções aplicadas ao Iraque desde o início da década (as mais severas que a história regista) tinham sido responsáveis pela morte de meio milhão de crianças, de doença e subnutrição; as forças de ocupação norte-americanas utilizaram, em 2004, armas incendiárias de fósforo branco sobre a população de Faluja; em 2013, a National Geographic contabilizava em 500 mil o número de iraquianos mortos até ao momento em resultado directo ou indirecto da guerra. A nenhuma destas notícias foi dado o aparato mediático concedido aos falsos argumentos dos agressores.
Foi este inferno que o imperialismo criou no Iraque, arrasado por 17 anos de ocupação, guerra, terrorismo e violência sectária, que antes desconhecia. O mesmo que pretende provocar no Irão, assim sinta que tem condições para tal.