Bolívia, golpe silenciado

Luís Carapinha

O Governo português nada disse sobre o golpe na Bolívia

A Bolívia continua a viver sob um estado de excepção não declarado. A tentativa de institucionalização do golpe de estado de 10 de Novembro, que obrigou à saída do país do presidente legítimo Evo Morales, é feita à custa da repressão alargada, da instauração do ódio anti-índigena e de um clima de caça às bruxas. À semelhança do acosso antidemocrático de outros países sul-americanos, como o Brasil e o Equador, a penetração e manipulação da Justiça pelas forças reaccionárias faz parte do seu modus operandi. Funciona assim o princípio de inversão da verdade. A vitória por expressiva margem de Evo Morales nas presidenciais de 20 de Outubro é transformada, com o concurso da autoridade ‘imparcial’ da OEA de Almagro, em ‘fraude’, e o governo e poder terrorista de facto impõe a criminalização dos protestos contra o golpe e a usurpação da vontade popular expressa nas urnas. Os grupos de terror que agrediram e sequestraram dirigentes do governo anterior, deputados do parlamento e eleitos do poder local do Movimento ao Socialismo (MAS) gozam de plena impunidade. Não se conhecem medidas de coacção contra os responsáveis policiais e militares pelo assassinato de dezenas de manifestantes nos primeiros dias após o golpe. Ao invés, contra Morales, que sob chantagem e risco de vida apresentou a renúncia e logrou com a ajuda do México partir para o exílio, é emitido um mandado de captura por «terrorismo e sedição». Dirigentes do MAS e ex-membros do governo continuam a ser presos indiscriminadamente e o governo usurpador anunciou a investigação de 592 pessoas ligadas ao poder deposto. Como referiu um dos principais líderes do movimento camponês, Andrónico Rodríguez, está em curso uma operação sistemática para «decapitar e destroçar» a direcção do MAS.

É pois sob um regime de terror que o governo presidido pela autoproclamada Jeanine Áñez deseja manter a fachada democrática, apontando a realização de novas eleições como a água benta para extirpar as manchas do golpe. Foi o principal general golpista, Kaliman, a colocar-lhe a faixa presidencial no palácio Quemado depois da sua nomeação no Senado, numa sessão em que os deputados do MAS – em maioria nas duas câmaras do parlamento – foram mantidos à distância. Desde então o parlamento reassumiu funções de forma coarctada. Kaliman e os restantes comparsas do alto comando militar partiram para os EUA, premiados pela alta-traição. E o governo interino assumiu prerrogativas que extravasam largamente as de um governo de gestão, numa maratona contra o legado de 13 anos de conquistas progressistas. Para além da repressão feroz, do ‘reconhecimento’ de Guaidó na Venezuela e o ingresso no grupo de Lima, a saída da ALBA e as mudanças em empresas chave do sector público, antecipando o seu regresso às mãos das multinacionais, são apenas algumas das medidas do governo golpista.

Tudo isto com o beneplácito de Trump e ao abrigo da revigorada doutrina Monroe do imperialismo dos EUA. Mas também a tíbia reacção da ONU e a conivência da UE. Para os paladinos dos ‘direitos humanos’ não importa sequer que a Bolívia do primeiro presidente índio se tenha convertido num exemplo na América Latina do combate à pobreza extrema e do desenvolvimento económico e social. Como, por cá, Santos Silva que optou pelo silêncio, em mais uma demonstração indigna e perigosa de servilismo.




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