Como elas se fazem

Margarida Botelho

É uma prática habitual das redacções ter prontos obituários de personalidades que, pela idade ou pela saúde, têm mais probabilidades de morrer. Pode parecer mórbido e agoirento, mas é assim que se garantem biografias razoavelmente profundas poucos minutos depois do anúncio de certas mortes.

Vem isto a propósito de uma grande reportagem sobre Qassem Suleimani, o general iraniano assumidamente assassinado pelos EUA no Iraque no final da semana passada, que a SIC Notícias transmitiu menos de 48 horas depois de ser conhecida a notícia.

A peça, da BBC, inclui testemunhos de gente insuspeita, como diplomatas, agentes da CIA e militares norte-americanos e israelitas, que dizem sobre Suleimani coisas tão factuais como: «um ser humano diabolicamente mau», «o Darth Vader da política contemporânea do Médio Oriente» ou «é a encarnação do mal global». Sobre ele, um militar norte-americano confessa a determinado momento que «seria maravilhoso se ele acabasse por ficar na mira» - da arma, claro.

Há duas maneiras de olhar para a escolha da SIC: ou gabando-lhe o sentido de oportunidade, ou lamentando o grau de seguidismo a que chegou - mas é necessária uma grande dose de ingenuidade para acreditar que as razões radicam num desinteressado faro jornalístico. É óbvio que a peça estava feita há muito tempo, à espera do momento ideal para passar. E se os EUA precisam de convencer o mundo de que se lhe deve agradecer este assassinato, está então na hora de tirar a peça do congelador.

Algures, nalgum centro de controlo de informações mundiais, alguém que sabia que o assassinato iria acontecer tratou com as diversas SIC dos diversos países para pôr a peça a bombar. O que é notável não é o descaramento do documentário. Notável é a capacidade do grande capital pôr os conteúdos que decide, no momento que determina, nos meios que lhe interessam.




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