O pêssego venenoso

António Santos

Se a tradução resulta num exercício de traição, o melhor mesmo é admitir que não há, na língua portuguesa, um equivalente para impeachment, cuja etimologia não tem nada a ver com «pêssego» e cujo significado não «impede» nada. O processo a decorrer no Comité Judiciário da câmara baixa dos EUA não corresponde a uma destituição nem tão pouco a uma condenação: tanto que nenhum dos únicos dois presidentes acusados (impeached), Johnson, em 1868, e Clinton, em 1998, não foram removidos do cargo. Segundo a constituição dos EUA, enquanto a referida acusação é votada pela Câmara dos Representantes, actualmente controlada pelos Democratas, a destituição, ou «remoção», do Presidente depende de uma maioria qualificada de dois terços da câmara alta, o Senado controlado pelos republicanos.

Naturalmente, os representantes democratas que esta semana votam os artigos da acusação contra Trump (provavelmente abuso de poder e obstrução ao Congresso) sabem que são magras as hipóteses de, sem uma maioria no Senado, conseguirem destituir Trump. Mesmo que, pela primeira vez na história, essa destituição acontecesse antes das eleições de Outubro próximo, assim empossando o vice-presidente ultra-evangélico Mike Pence, nada nos garante que Trump não retomaria a presidência nas urnas.

O que Nancy Pelosi pretende, longe de escrever o seu obituário político, é desgastar a imagem do presidente, forçando-o a ir a votos com uma acusação formal pendendo como espada de Dámocles, sobre a sua reeleição, mas, sobretudo, fazer implodir o Partido Republicano. Por vicissitude da arquitectura eleitoral dos EUA, muitos congressistas republicanos terão de escolher entre a lealdade ao presidente e a sua reeleição em círculos eleitorais hostis a Trump.

A líder democrata Nancy Pelosi pode não ter escrito apenas o seu obituário político. É previsível que, à semelhança de Bill Clinton, Trump procure rebuçar em casa as sórdidas acusações de impeachment recrudescendo a escalada de agressões imperialistas no mundo, desatando provocações, guerras e operações de falsa bandeira. Por outro lado, um impeachment técnico, atado com jargão judicial e afastado dos reais problemas do povo estado-unidense, pode construir o pretexto ideal para Trump, agitando o golpe de Estado, terminar de purgar o Partido Republicano e inaugurar uma nova fase, mais radical e acelerada, de fascização da sociedade.

Nem se trata da culpa ou inocência de Trump: a acusação de ter pressionado o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, para encurralar o adversário democrata Joe Biden é o menor dos crimes de Trump. Veja-se, por exemplo, a acusação de que a Rússia interferiu, com 70 mil dólares, na campanha presidencial de 2016: só no golpe ucraniano de Maidan, o Departamento de Estado dos EUA interferiu assumidamente com 5 mil milhões de dólares.

O impeachment contra Trump é um impeachment do Partido Democrata. Incide sobre o acessório porque não os separa nada de essencial. Mas, como é apanágio de todas as grandes crises históricas, este é um pêssego potencialmente venenoso.




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