Descontentamento social invade ruas da Colômbia

MA­NI­FESTAÇÕES A Colômbia vive há se­manas pro­testos po­pu­lares, que pros­se­guem. Os ma­ni­fes­tantes re­jeitam as po­lí­ticas do go­verno e pro­nun­ciam-se contra a vi­o­lência e pela paz.

Ma­ni­fes­tantes pro­põem ao go­verno uma Mesa Na­ci­onal de Diá­logo

Con­cen­tra­ções po­pu­lares, por vezes in­cluindo in­ter­ven­ções cul­tu­rais, mo­bi­li­za­ções e ca­ce­ro­lazos são al­gumas das ini­ci­a­tivas que têm de­cor­rido em toda a Colômbia, so­bre­tudo nas ci­dades mais im­por­tantes como Cali, Me­dellín, Car­ta­gena, Bar­ran­quilla e Bo­gotá.

Nos car­tazes em­pu­nhados pelos ma­ni­fes­tantes podem ler-se pa­la­vras de ordem como «Não mais cri­anças, in­dí­genas e ex-guer­ri­lheiros as­sas­si­nados!» ou «Pro­testar é um di­reito, re­primir é um de­lito». Esta úl­tima con­signa re­fere-se ao uso ex­ces­sivo de força por parte das au­to­ri­dades du­rante os pro­testos.

Desde a greve na­ci­onal de 21 de No­vembro úl­timo, qua­li­fi­cada de his­tó­rica pela ampla par­ti­ci­pação e pela di­ver­si­dade de sec­tores re­pre­sen­tados, su­cedem-se as ac­ções de pro­testo, em es­pe­cial na ca­pital.

Na se­mana pas­sada, as ruas do país tes­te­mu­nharam outra pa­ra­li­sação na­ci­onal em que mi­lhares de pes­soas ma­ni­fes­taram des­con­ten­ta­mento e exi­giram re­formas pro­fundas em áreas como edu­cação, saúde, meio am­bi­ente e se­gu­rança.

Em Bo­gotá ti­veram lugar mar­chas e con­cen­tra­ções em di­fe­rentes pontos. Como em oca­siões an­te­ri­ores, numa dessas mo­bi­li­za­ções par­ti­ci­param es­tu­dantes e in­dí­genas, que che­garam à ci­dade pro­ce­dentes de di­fe­rentes de­par­ta­mentos para apoiar a pa­ra­li­sação. O res­peito pela vida e a pre­sença efec­tiva do Es­tado em todo o ter­ri­tório estão entre as prin­ci­pais exi­gên­cias dos povos na­tivos, ví­timas fre­quentes da vi­o­lência na Colômbia.

As mar­chas dos úl­timos dias ti­veram um de­no­mi­nador comum, já que as pes­soas se ma­ni­fes­taram também para honrar a me­mória de Dilan Cruz, um jovem de 18 anos que morreu de­pois de ter sido fe­rido com gra­vi­dade por um membro do Es­qua­drão Móvel Anti-dis­túr­bios da po­lícia, du­rante um pro­testo pa­cí­fico em Bo­gotá. Trata-se de um dos pontos de dis­córdia nas reu­niões em curso entre o go­verno e o Co­mité Na­ci­onal de Greve, já que este in­siste em pedir o des­man­te­la­mento do es­qua­drão re­pres­sivo.

Desde 28 do mês pas­sado que o Co­mité de Greve, os con­gres­sistas da Ban­cada pela Paz e o mo­vi­mento De­fen­damos a Paz de­fendem o início de um diá­logo in­clu­sivo, de­mo­crá­tico e eficaz com o go­verno.

Em sua opi­nião, o que o pre­si­dente Iván Duque de­no­minou con­ver­sação na­ci­onal, ini­ciada com al­guns opo­si­tores, não cumpre os re­qui­sitos men­ci­o­nados nem quanto à forma nem quanto ao con­teúdo. Por isso, pro­pu­seram a for­mação de uma Mesa Na­ci­onal de Diá­logo, plural e di­versa, com re­pre­sen­tantes dos di­fe­rentes sec­tores so­ciais – além do Co­mité de Greve e da Ban­cada pela Paz, também as­sem­bleias e grupos de ci­da­dãos, or­ga­ni­za­ções cul­tu­rais e ou­tras forças ci­dadãs que se mo­bi­li­zaram.

Mais ac­ções de pro­testo

O Co­mité de Greve na Colômbia di­na­miza nesta se­mana mais ac­ções de pro­testo, en­quanto as reu­niões entre re­pre­sen­tantes de forças so­ciais e o go­verno con­ti­nuam a não pro­duzir quais­quer re­sul­tados.

Dió­genes Or­juela, pre­si­dente da Cen­tral Uni­tária de Tra­ba­lha­dores (CUT), or­ga­ni­zação que in­tegra o Co­mité de Greve, re­velou que na se­gunda-feira, 9, houve uma vi­gília no local onde de­correm ne­go­ci­a­ções sobre o sa­lário mí­nimo que, ac­tu­al­mente, ronda os 237 dó­lares men­sais.

A CUT e ou­tras vozes pedem um re­a­jus­ta­mento sa­la­rial que cubra as ne­ces­si­dades bá­sicas para mi­lhões de co­lom­bi­anos, in­sistiu o di­ri­gente sin­dical, quase três se­manas de­pois do co­meço dos pro­testos anti-go­ver­na­men­tais no país.

Or­juela anun­ciou que vai re­a­lizar-se uma outra acção de massas em Bo­gotá no dia em que for vo­tada a re­forma tri­bu­tária, con­si­de­rada uma ini­ci­a­tiva que lesa os in­te­resses dos tra­ba­lha­dores e do povo. A esse res­peito, Iván Ce­peda, da Co­missão de Paz do Se­nado, afirmou que «é fran­ca­mente ver­go­nhoso ouvir [o ex-pre­si­dente Álvaro] Uribe pro­mover a re­forma tri­bu­tária, di­zendo que traz be­ne­fí­cios so­ciais como os três dias sem IVA».

As reu­niões entre o Co­mité de Greve e o go­verno co­lom­biano pros­se­guem, pois, sem que se con­cre­tizem acordos. «Temos dis­cre­pân­cias com a po­sição do go­verno. Eles falam de “con­ver­sa­ções”, en­quanto nós in­sis­timos na ne­ces­si­dade de uma mesa de ne­go­ci­ação», ex­plicou o di­ri­gente da CUT.

Por tudo isso, o nível de de­sa­pro­vação do pre­si­dente co­lom­biano, Iván Duque, situa-se hoje em 70 por cento, a cifra mais alta desde a sua eleição, há 16 meses.

Um inqué­rito de opi­nião da In­vamer, ci­tado por ór­gãos de co­mu­ni­cação so­cial de Bo­gotá, mostra que o ín­dice de apro­vação é agora, no meio da vaga de pro­testos so­ciais, de 24 por cento.

O nível de pes­si­mismo dos co­lom­bi­anos in­qui­ridos al­cançou o mais alto nível desde que Duque as­sumiu o cargo, pas­sando de 70 para 79 por cento.

Em re­lação ao pro­blema do em­prego, a per­cepção ne­ga­tiva é de 89 pontos, coin­ci­dindo com uma taxa de de­sem­prego de cerca de 10 por cento. Quanto à luta contra a po­breza, os en­tre­vis­tados res­pon­deram que também nesse campo o país pi­orou.

En­tre­tanto, a Fun­dação para a Li­ber­dade de Im­prensa (FLIP) de­nun­ciou e re­jeitou «o des­co­munal au­mento de de­ten­ções ile­gais de jor­na­listas, pela po­lícia, em vá­rias ci­dades co­lom­bi­anas».

Entre os dias 5 e 7, a FLIP do­cu­mentou três casos de pri­sões ar­bi­trá­rias en­vol­vendo pelo menos seis re­pór­teres, nas ci­dades de Bu­ca­ra­manga, Me­dellín e Bo­gotá. Estes casos, pre­cisou a fun­dação, juntam-se a ou­tras si­tu­a­ções ocor­ridas desde a greve geral de 21 de No­vembro. Dessa data até ao dia 7, foi con­fir­mada a de­tenção ilegal de 19 jor­na­listas que fa­ziam a co­ber­tura dos pro­testos, isto de­pois de no­ti­ci­ados os ex­cessos po­li­ciais contra os ma­ni­fes­tantes.

Um co­mu­ni­cado da FLIP ques­tiona se o au­mento inu­si­tado de de­ten­ções de jor­na­listas re­sulta de al­guma ori­en­tação dada à po­lícia para im­pedir o tra­balho da im­prensa.

So­li­da­ri­e­dade do PCP
com o povo co­lom­biano

O Par­tido Co­mu­nista Por­tu­guês saúda os tra­ba­lha­dores e o povo co­lom­biano, os co­mu­nistas e as ou­tras forças re­vo­lu­ci­o­ná­rias e pro­gres­sistas da Colômbia, pela his­tó­rica greve na­ci­onal e jor­nada de mo­bi­li­zação po­pular, de­sen­vol­vida desde o pas­sado dia 21 de No­vembro, contra o pa­cote de me­didas ne­o­li­be­rais do go­verno do pre­si­dente Iván Duque – su­bor­di­nado às im­po­si­ções do FMI e da OCDE – e pelo efec­tivo cum­pri­mento do Acordo de Paz na Colômbia, as­si­nado com as FARC-EP.

Numa nota do seu Ga­bi­nete de Im­prensa, da­tada do dia 3, o PCP «de­nuncia e con­dena os crimes que con­ti­nuam a ser per­pe­trados pelo re­gime oli­gár­quico co­lom­biano contra a vida de di­ri­gentes e ac­ti­vistas po­lí­ticos, sin­di­cais e so­ciais, re­pre­sen­tantes dos povos in­dí­genas, ex-guer­ri­lheiros e de­fen­sores dos di­reitos hu­manos, con­tando com a co­ni­vência do go­verno de Iván Duque».

Re­a­fir­mando a so­li­da­ri­e­dade dos co­mu­nistas por­tu­gueses para com a luta do povo co­lom­biano e das suas or­ga­ni­za­ções re­vo­lu­ci­o­ná­rias e pro­gres­sistas, o PCP «su­blinha a de­ter­mi­nação das forças po­lí­ticas, so­ciais e po­pu­lares co­lom­bi­anas que, não obs­tante as me­didas de in­ti­mi­dação e a forte re­pressão por parte do Go­verno de Iván Duque, se têm mo­bi­li­zado na exi­gência da paz, de di­reitos de­mo­crá­ticos, de me­lhores con­di­ções de vida».



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