Grandes manifestações populares rejeitam golpe de Estado na Bolívia
BOLÍVIA Reprimidas brutalmente pelas forças policiais e militares, continuam a registar-se grandes manifestações populares contra o golpe de Estado. Exige-se a renúncia da auto-proclamada presidente interina e o regresso de Evo Morales.
Evo Morales: «Pediam democracia, instalaram uma ditadura»
Face aos protestos populares contra a auto-proclamada presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, persiste em La Paz a incerteza sobre a convocação de novas eleições. Após o golpe de Estado que afastou no dia 10 o presidente Evo Morales, que se encontra asilado no México, e da formação de um governo de facto, com o apoio das forças armadas, continuam os protestos e bloqueios de estradas em pelo menos quatro departamentos, apesar da violenta repressão que causou mais nove vítimas mortais nos últimos dias.
Os fechos de vias de comunicação ocorreram nos departamentos de La Paz, Santa Cruz, Cochabamba e Chuquisaca, enquanto em Potosí registaram-se mobilizações de protesto, na terça-feira, 19, quando terminou o prazo de 48 horas dado a Áñez para que renunciasse. O ultimato foi imposto inicialmente pela Federação de Cultivadores de Folha de Coca da zona tropical de Cochabamba, que na véspera foram reprimidos quando marcharam para a capital provincial.
Um prazo idêntico foi apresentado por organizações de populações de El Alto, vizinha de La Paz, que mantém cercada as instalações de distribuição de combustível de Senkata, impedindo o abastecimento de gasolina, gasóleo e gás à cidade, que além disso sofre de escassez de alimentos e outros produtos pelos bloqueios de estradas.
Posições semelhantes expressaram os distritos do departamento de La Paz, que mobilizaram delegações e rodearam na capital, numa vigília pacífica, a Praça Murillo, onde se encontram os palácios do governo e do parlamento.
Foi nessa zona, no Congresso da República, que se reuniram no início desta semana, sem chegar a acordo, representantes do Estado, encabeçados pelo ministro do Interior do governo golpista, Arturo Murillo, e de congressistas do Movimento para o Socialismo (MAS), que detêm mais de dois terços dos assentos.
O ministro golpista pareceu pouco inclinado a criar condições para entendimentos, pois insinuou que pelo menos uma parte dos nove cocaleros (produtores de folhas de coca) mortos em Sacaba e Cochabamba, nos dias anteriores, tinham sido vítimas dos próprios companheiros e recusou-se a dar o total de civis mortos. Além disso, Murillo ameaçou continuar a perseguição a membros do MAS e manifestantes e insistiu numa linguagem beligerante.
O encontro, à porta fechada, não chegou a acordos e a minoria opositora ao MAS considerava a possibilidade de Áñez, por decreto, convocar eleições e designar novos órgãos eleitorais, à revelia do parlamento.
Também houve conversações em busca de uma solução para a situação na Bolívia promovidas pelo representante das Nações Unidas, Jean Arnault, e pela União Europeia. Assistiram funcionários do governo golpista de Áñez, encabeçados pelo ministro da Presidência, Jerjes Justiniano, e representantes do MAS, dirigidos pela senadora Eva Copa. A reunião terminou sem qualquer acordo.
No fim-de-semana, a alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, reportou denúncias de mortes de manifestantes causadas pelas forças policiais e militares e instou as autoridades da Bolívia a garantir às pessoas que protestam a segurança e o direito à vida. Há notícias de 24 mortos e mais de 700 feridos. A antiga presidente chilena teme que a situação na Bolívia possa piorar e recrudescer a violência e a repressão.
Situação na Bolívia
«fora de controlo»
No meio da forte repressão contra os protestos populares que exigem o fim da violência e rejeitam o governo de facto de Jeanine Áñez, as Nações Unidas enviaram uma missão técnica à Bolívia. A equipa do Gabinete de Direitos Humanos da ONU tem por objectivo recolher informação sobre as garantias fundamentais no país e esclarecer os casos de violência, denúncias de assassinatos por parte das forças militares e outras violações.
Por outro lado, encontra-se já em La Paz o enviado pessoal do Secretário-geral das Nações Unidas, Jean Arnault, que procura estabelecer um diálogo tendo em vista a paz no país.
Na verdade, segundo as agências noticiosas, a situação na Bolívia parece fora de controlo, após o golpe de Estado contra Evo Morales, forçado a asilar-se no México para proteger a sua vida face às ameaças dos golpistas.
O governo de facto boliviano, encabeçado pela auto-proclamada presidente interina Jeanine Áñez, desencadeou uma violenta repressão, chegando ao extremo de emitir um decreto que exime os militares de responsabilidade penal nas suas acções contra os manifestantes. Além disso, autorizou fundos milionários para equipamento adicional das forças armadas bolivianas e criou um organismo especial para prender os congressistas do MAS que cometam alegados «actos subversivos» ou de «sedição».
Do México, Evo Morales escreveu que os golpistas, «em lugar de pacificação, ordenam a difamação e a repressão contra irmãos do campo que denunciam o golpe de Estado». E acrescentou: «Depois de massacrar 24 indígenas, preparam agora um Estado de sítio. Seria a confirmação de que, pedindo democracia, instalaram uma ditadura»
García Linera denuncia
interferência dos EUA no golpe
O vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, denunciou no sábado, 16, que o golpe de Estado contra o presidente Evo Morales foi perpetrado por forças internas e externas.
As forças internas são encabeçadas por Carlos Mesa, candidato presidencial derrotado nas urnas por Morales, e por Luís Fernando Camacho, líder de um «Comité Cívico» em Santa Cruz. Urdiram uma aliança de militares e civis contra a Constituição e houve «conversações entre funcionários dos Estados Unidos e bolivianos» no sentido de derrubar o governo legítimo presidido por Morales.
García Linera, que se encontra asilado no México, reiterou que tanto os EUA como a Organização dos Estados Americanos (OEA), ao serviço de Washington, procuram legitimar o golpe de Estado, apesar de existir «um poder externo que mobilizou polícias, forças políticas e governos regionais para consumar o golpe sangrento».
O vice-presidente boliviano insistiu: «Há um golpe de Estado por várias razões, porque bandos paramilitares de civis armados queimaram sindicatos, queimaram assembleias eleitorais, atacaram milhares de mulheres indefesas; há um golpe porque o comando da polícia ignorou a Constituição e ignorou o poder civil, amotinou-se contra o governo eleito; há um golpe porque o comandante-chefe das Forças Armadas [general Williams Kalimán] pediu ao presidente para renunciar ao cargo, caso contrário o Exército o mataria».
O que se passa na Bolívia, resumiu García Linera, «é uma luta entre uma minoria aristocrática que quer derrubar os direitos de um povo organizado, um povo que resiste a perder esse poder».